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Símbolo de beleza e fascínio

Cultivar a espécie é um exercício relaxante. Comprá-las (ou melhor, ganhá-las!) é um imenso prazer para homens ou mulheres, jovens ou maduros, amantes do verde ou seres urbanos. E nos dias atuais, as orquídeas exercem um papel especial na natureza, já que são sinônimos de bom equilíbrio ecológico do local onde desabrocham.

Texto Lúcia Bakos

Huntleya meleagris

Octomeria juncifolia

Estima-se que existam, aproximadamente, 25 mil espécies naturais de orquídeas no mundo, e a Colômbia figura como líder em quantidade de tipos conhecidos. No Brasil, a diversidade da planta é incerta, mas, segundo orquidófilos, varia entre 2,5 mil e 2,8 mil espécies naturais, ou cerca de 10% das catalogadas em todo o mundo.

No estado de São Paulo, a estimativa é de 900 tipos e o litoral paulista faz bonito nesta avaliação. Por estar encravado em plena Mata Atlântica – maior biodiversidade do planeta – abriga grande parte dessas riquezas vegetais.

Catasetum bertioguense

Em Bertioga, por exemplo, pesquisas indicam existir mais de 150 espécies nativas. Algumas, inclusive, são raridades (Stanhopea guttulata, Pogoniopsis schenkii, Platystele oxyglossa, Pabstia modestior, Mormolyca galeata, Cryptarrhena kegelii e Sudamerlycaste rossyi). 

O mais animador é que sempre se descobre, na região, uma nova espécie, já que ela concentra o maior número de pesquisadores do assunto, seguida do Rio de Janeiro.

O taxonomista (especialista em identificação de espécies) e diretor técnico do Círculo Paulista de Orquidófilos (CPO) – mais antiga associação orquidófila do estado de São Paulo, de 1941 –, Marcos Antonio Campacci, já descreveu mais de 70 delas, desde 1983. O processo, ele conta, segue normas do Código Internacional de Nomenclatura Botânica (publicação atualizada a cada conferência internacional da qual participam as maiores autoridades mundiais no assunto), entre outros quesitos, como uma série de informações da orquídea em questão e a distribuição do Código Internacional por pelo menos meia dúzia de instituições oficiais de estudo de Botânica. Após todo esse processo, se aceita, a orquídea é reconhecida mundialmente. “A nominação da planta segue uma série de regras, mas, de maneira geral, é um binômio genérico/específico, em latim ou palavras latinizadas, acompanhado do nome do autor. Isso é para sempre, enquanto existir a humanidade, por isso, as pessoas fazem tanta questão de ter seu nome ligado a uma nova espécie. Uma questão de vaidade humana”, detalha Campacci.

Catesetum bertioguense

Campaccia venusta, que leva o nome do orquidófilo

Uma das descobertas de Campacci, presidente do Núcleo Orquidófilo de Bertioga (NOB), criado em 2009, foi a Catesetum bertioguense, originária, como o nome indica, de Bertioga. A espécie, já conhecida de longa data, era confundida com outra natural de Minas Gerais. “Desde 2002 sabíamos tratar-se de coisa diferente e, quando da visita de um grande especialista internacional ao Brasil, ele confirmou nossa opinião, razão pela qual resolvemos descrevê-la, em homenagem à cidade de Bertioga, onde foi encontrada primeiramente, na região de Boracéia. Ela encontra-se difundida por toda a faixa litorânea de Bertioga”.

Um dos objetivos do Núcleo de Orquidófilos de Bertioga é fazer com que a cidade seja conhecida como “A cidade das orquídeas”. Nesse sentido, o grupo realizou a fixação de 800 mudas de orquídeas pertencentes a espécies classificadas como criticamente ameaçadas de extinção, nas árvores do Parque dos Tupiniquins – entorno do Forte -, na Praia da Enseada, com destaque para a Brasilaelia purpurata e a Cattleya intermédia, bastante comum nas matas de Bertioga.

Entre os projetos do NOB, estão o de capacitação dos indígenas da Terra Indígena Ribeirão Silveira – situada na divisa entre Bertioga e São Sebastião –, para o manejo sustentável de orquídeas e bromélias, e o de implantação de um plano de educação ambiental nas escolas públicas da cidade.

Paixão total

Anacheilium pachysepalum

Rodriguezia bracteata

Vanilla chamissonis

São muitos os colecionadores e cultivadores de orquídeas espalhados pelo mundo, inclusive em Bertioga. Em uma área de 2 mil m², o casal de dentistas paulistano Celso e Solange Peres cultiva centenas de espécies de orquídea. Entre elas, pode-se encontrar até mesmo a Vanilla, da qual se origina a baunilha. Foi a partir dessa paixão do casal por orquídeas, inclusive, que se cogitou a criação do NOB. “Nossa ideia é fazer com que Bertioga seja conhecida como a ‘Cidade das Orquídeas’, já que há uma biodiversidade genética muito grande por aqui. Bertioga merece esse título, são mais de 150 espécies nativas”, assegura Celso. 

Um outro aficionado mora numa casa simples, localizada no bairro Vista Linda, mas que chama atenção devido a uma particularidade: vasos variados de orquídeas dispostos caprichosamente na varanda. O marceneiro João Ribeiro Soares Júnior, apaixonado por orquídeas há seis anos, conta que tal febre se deu a partir de um amigo orquidófilo que o presenteou com um exemplar. “Achei uma planta fascinante, muito bela. Foi aí que veio minha febre pelas orquídeas”. E a filha dele segue os mesmos passos. De tanto presenciar o pai cuidando das orquídeas, Juliana Paiva Soares, de 12 anos, decidiu cultivar suas próprias espécies, em outro orquidário. Ela diz descobrir os gêneros por meio de revistas especializadas que ensinam a identificar os tipos de orquídeas.

Processo de vida

Cleistes libonii é um exemplo de orquídea terrestre

Na natureza, as orquídeas ocorrem de três formas principais: terrestres, rupícolas e epífitas. As terrestres se desenvolvem a partir do solo; as rupícolas se agarram às frestas das rochas, nas quais ocorre acúmulo de material orgânico e água, que lhes servem de alimento. Já as epífitas são espécies mais evoluídas. Vivem presas a outros vegetais (árvores, cactos, arbustos). Não são parasitas, apenas usam esses hospedeiros para se apoiar e buscar luz, sem extrair-lhes seiva. Alimentam-se via água que escorre pelos troncos e trazem consigo os nutrientes de que elas se alimentam, num processo muito lento.

Suas flores atraem polinizadores, principalmente insetos, que as fecundam e, com isso, criam as cápsulas de sementes que vão gerar novas plantas. Essas sementes são sempre carregadas pelo vento e, ao caírem em local com condições ideais, geram novas plantas.

O chamado “estresse” ocorre quando há um desequilíbrio violento nas condições ambientais, normalmente gerado pelos humanos. Mas as orquídeas são muito resistentes e só morrem em condições extremas.

No caso de cultivo doméstico, costuma-se acondicioná-las em vasos ou recipientes especiais. Temos então que dar a elas o necessário à sobrevivência: água de boa qualidade (não clorada), adubo e boa incidência de luz e ventilação.

Agindo corretamente, teremos orquídeas saudáveis por muito tempo. Para quem é iniciante no cultivo, é aconselhável participar de reuniões orquidófilas, como o Núcleo Orquidófilo de Bertioga (NOB), onde boas informações podem ser encontradas.

Fonte: Marcos Antonio Campacci

Estudantes participaram da fixação de orquídeas nas árvores do Parque dos Tupiniquins, em Bertioga

O estudante Henrique Felix Trindade, de 14 anos, também é fascinado por orquídeas desde que acompanhou a mãe Marly Alves, em uma das

reuniões do NOB. O interesse pela espécie foi imediato e, a partir de então, não largou mais a curiosidade pelos diferentes tipos da planta. 

O estudante Henrique Felix Trindade, de 14 anos, já é um grande cultivador de orquídeas

A dona de casa Marlene Kitamura, de 57 anos, diz: “A beleza das orquídeas para mim é tudo, fico encantada. É a flor que mais admiro, ela é cheia de detalhes, é inexplicável a paixão por orquídeas”. Com mais de 50 mudas na residência, Marlene mostra quão grande é o seu fascínio pela espécie: “Deixo de comprar uma roupa e compro orquídeas. Gosto tanto que, se pudesse, colocaria uma mochila nas costas e viajaria por ai atrás de orquídeas”, conclui sorrindo.

Brasilaelia purpurata, a “Rainha das Orquídeas”

Brasilaelia purpurata

Presente de forma marcante nos limites do município de Bertioga, a espécie é considerada por muitos a mais expressiva dessa família de plantas tão evoluída, as Orchidaceae. Majestosa, talvez seja com essa palavra que se deva resumir o grande rol de adjetivos usados para exprimir a beleza dessa espécie. Foi a principal responsável direta pelo surgimento da orquidofilia no Brasil. No sul do país, ainda é a maior propulsora das coleções. Sua ocorrência restringe-se aos estados de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, na Mata Atlântica, até aproximadamente 200 metros de altitude. Apresenta inflorescências abundantes e com um grande número de variações de cores e desenhos. Essa enorme gama de variedades é que a torna objeto de desejo de colecionadores.

Fonte: revista NOB/2010.

III Semana de Orquídeas e Bromélias de Bertioga

Inúmeras espécies de orquídeas e bromélias deram ainda mais vida às instalações do Forte São João, em Bertioga, entre os dias 4 e 6 de novembro passados. A III Semana de Orquídeas e Bromélias, promovida pelo NOB (Núcleo Orquidófilo de Bertioga), em parceria com o comércio e prefeitura locais, estava supercolorida, devido à variedade de plantas expostas.

Grande público prestigiou o evento, que ofereceu novidades aos seus visitantes, como oficinas de arte com pinturas em óleo sobre tela e cartões de mensagens com temas referentes às plantas, e o oferecimento de rifas onde, claro, o prêmio era uma bela planta adulta de orquídea ou bromélia. Outro diferencial da edição deste ano foi a mostra fotográfica que homenageou a paixão dos bertioguenses pelas plantas. O material exposto foi resultado de trabalho realizado pelo Foto Clube Lentes Caiçaras, do município. Com a participação de várias associações de orquidófilos do estado de São Paulo, em especial, do litoral paulista, o evento contou ainda com as já tradicionais oficinas sobre manejo e conservação das espécies e a promoção da educação ambiental, por meio do plantio de orquídeas nas árvores do Parque dos Tupiniquins, que fica no entorno do Forte.

João Ribeiro pegou a “febre das orquídeas” há 6 anos, quando foi presenteado com um exemplar

Houve sorteios e venda de plantas, além de distribuição gratuita de revista que trata da biologia e conservação dessas plantas no habitat da Mata Atlântica e, consequentemente, no de Bertioga, assim como a trajetória do NOB, que atua em prol da conservação das orquídeas e bromélias.

 


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