Texto e fotos: Flávio Souza
Se jogado na pia ou no ralo, um litro de óleo usado contamina diretamente até 25 mil litros de água. Se enterrado na areia, infecta o lençol freático, entre outros problemas ambientais (veja quadro). Mas, se destinado corretamente, pode se transformar em glicerina, sabão em pó ou em pedra, detergente, biodiesel, além de corante para tinta plástica e ração animal. Sim, tudo isso!
Felizmente, há grupos que trabalham para conscientizar a sociedade sobre as muitas possibilidades de se preservar o meio ambiente, por meio de ações cotidianas e permanentes. Bom exemplo é o Instituto Biosantos, criado em 2008, e sediado em Santos, que tem projetos na área de coleta seletiva na região. Entre eles, o cadastro de 1376 ecopontos (condomínios residenciais e estabelecimentos comerciais), nas cidades de Santos e São Vicente, nos quais são coletados, por meio de um coletor com capacidade para 50 litros cada um, cerca de 40 mil litros de óleo de fritura.
O ambientalista Roberto Coutinho, fundador e presidente do instituto, explica que cada pessoa consome, em média, 500 ml de óleo por mês. Já um restaurante de grande porte chega a utilizar 250 litros. “Com esses dados, concluímos que o que coletamos não é nem 15% do que é utilizado mensalmente nessas duas cidades. Assim, vimos que havia lacunas que precisavam ser supridas, como as casas e pequenos estabelecimentos. Para preencher esses espaços, lançamos, em junho, o projeto Gari do Óleo”.
Em parceria com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), o projeto conta com trabalhadores capacitados para coletar o resíduo nas casas. Além da capacitação, esses profissionais também recebem aulas de alfabetização, quando necessário, e ganham uma fonte de renda: R$ 0,25 por litro arrecadado. Por enquanto, o projeto é voltado exclusivamente para Santos, onde cada bairro conta com um agente responsável que, devidamente uniformizado, facilita o aculturamento e o hábito de guardar o óleo consumido.
Reciclagem
Atualmente, o óleo arrecadado pelo Biosantos é enviado para uma recicladora no interior do estado. “Aqui na Baixada Santista não temos uma recicladora de grande porte, apenas algumas entidades que, individualmente, transformam o resíduo em produtos de limpeza. Nosso objetivo é ter nossa própria recicladora na região para fabricar biodiesel”.
O ambientalista destaca que a destinação mais correta para o óleo de cozinha usado é o biocombustível, já que a sua utilização na fabricação de vernizes, cola e tintas seria apenas uma maneira de retardar a chegada de alguns derivados do mesmo ao meio ambiente. Usar o óleo de cozinha pós-uso na ração animal também não é recomendado, pois alguns produtos presentes no óleo saturado podem ser extremamente tóxicos, o que poderia causar sérios problemas aos animais e, por consequência, ao homem. “Quando o óleo de cozinha usado é aproveitado na produção de biodiesel, evitamos uma série de danos ambientais provocados pelo uso inadequado do mesmo”.
Ele diz, também, que o biodiesel, ao substituir o diesel, reduz emissões de enxofre e outros materiais responsáveis, por exemplo, pelas chuvas ácidas e doenças respiratórias. “Além disso, sua transformação em biodiesel ainda é viável economicamente, pois o biodiesel produzido a partir do óleo de cozinha (um litro de óleo saturado gera de 700 a 900 ml de biodiesel) sai em média 40% mais barato, quando comparado com aquele produzido a partir do óleo de algumas oleaginosas”, afirma.
Num cálculo rápido, Roberto Coutinho conclui que, se fosse arrecadado todo o óleo de cozinha produzido na Baixada Santista (1.700 mil habitantes), seria possível produzir combustível ecologicamente correto suficiente para o tráfego de todos os ônibus municipais e intermunicipais da região. O que resultaria em um ar 28% menos poluído. “Só não conseguimos fabricar o biodiesel, porque, para isso, seria necessário coletarmos mensalmente a quantidade mínima de 120 mil litros de óleo usado”.
Ações públicas
A Sabesp também tem um trabalho voltado à reciclagem do resíduo, o Programa de Reciclagem de Óleo de Fritura (PROL). “O PROL já é uma realidade e está implantado nas cidades de Santos, Praia Grande, Mongaguá, Itanhaém e Peruíbe. E avança a cada dia, a fim de levar maior conscientização para a população”, explica Joaquim Ornink Filho, superintendente da companhia na Baixada Santista.
Nas cidades do litoral sul, a companhia fez parceria com as prefeituras locais para efetivar programas de coleta do resíduo junto aos quiosques das orlas, mas, em Peruíbe, a coleta é feita especificamente nos estabelecimentos que manipulam alimentos.
Em Praia Grande, 45 dos 165 quiosques estão cadastrados nesse programa, iniciado no verão passado. O quiosque que ingressa no PROL recebe da prefeitura o Selo de Responsabilidade Ambiental. “No verão, cada quiosque utiliza cerca de 60 litros de óleo por mês; assim, chegamos a coletar 1500 litros entre os meses de dezembro de 2009 e fevereiro de 2010”, diz Marcelus Condé, chefe do departamento do Verde e Meio Ambiente, da Secretaria Municipal de Habitação e Meio Ambiente, de Praia Grande. Em breve, o mesmo programa deverá ser implantado nas colônias de férias e condomínios residenciais.
Serviço: para participar do programa de reciclagem de óleo de fritura, o interessado pode entrar em contato com o Instituto Biosantos, pelo telefone (13) 3877 5042. Informações adicionais no site http://www.institutobiosantos.com.br.
Efeitos colaterais
Quando lançado diretamente nos mananciais, o óleo usado, por ser mais leve que a água, fica retido na superfície; dessa forma, cria uma barreira que dificulta a entrada de luz e a oxigenação da água, e o resultado é o comprometimento da base da cadeia alimentar aquática.
Quando atinge o solo, o óleo tem a capacidade de impermeabilizá-lo, assim, dificulta a penetração da água da chuva, e facilita a formação de grandes enchentes.
O lançamento de resíduos nos leitos de rios e lagos provoca, ainda, a proliferação de microorganismos que contribuem para reduzir a quantidade de oxigênio na água. O que causa a morte de peixes e de outros organismos aquáticos e, até, do próprio rio ou lago. Esse tipo de dano ambiental contamina a água e toda biota aquática, com sérios riscos para a saúde humana.


