“Boa parte da população – principalmente nas grandes metrópoles – não tem conhecimento algum sobre o maior carnívoro brasileiro, a onça-pintada. Considerado o animal símbolo do nosso país, esse felino está ameaçado de extinção em todo o continente americano. É provável que, em 10 ou 20 anos, ele desapareça por completo, por isso, é essencial que as pessoas tenham mais informação”, alerta o pesquisador Rogério Martins, que atua há 14 anos em defesa da espécie.
Por Flávia Souza
Nessa luta, o biólogo encampou também outras espécies de felino, como a onça-parda, o gato-do-mato pintado, o gato maracajá, o jagurundi e a jaguatirica, afetados principalmente pela fragmentação do seu habitat. Assim nasceu o Projeto Jaguar, que tem como base uma pesquisa minuciosa sobre a espécie no bioma Mata Atlântica, ambientada especificamente na Estação Ecológica Juréia-Itatins e entorno.
Os resultados da pesquisa foram divulgados no Congresso Ibero-Americano de Educação, na Argentina, em setembro do ano passado. O trabalho ficou exposto durante o evento, e foi publicado nos anais do congresso. Agora, o próximo passo é publicar um livro sobre o assunto.
Juréia
Na Estação Ecológica Juréia-Itatins, em Peruíbe, um dos cinco estuários mais importantes do mundo, possuidor do título de Patrimônio Histórico da Humanidade, concedido pela Unesco, a estimativa do pesquisador e sua equipe é de que restam apenas cinco onças-pintadas, 22 onças-pardas, além de outros felinos como o gato-do-mato pintado, o gato maracajá, o jagurundi e a jaguatirica. Dos 80 mil hectares da estação ecológica, os animais só ocupam 50 mil.
A falta de espaço para a onça-pintada é um fator preocupante para os pesquisadores e ambientalistas do Projeto Jaguar. Cada indivíduo da espécie necessita de 10 mil hectares de habitat fragmentário – espaço ideal para o animal caçar e se proliferar. Em pequenas áreas, os felinos sofrem degradações genéticas, causadas por cruzamentos consanguíneos. A degradação genética significa filhotes defeituosos e menor resistência dos animais às doenças. A integridade genética pede populações de pelo menos 50 indivíduos.
Corredores ecológicos
Para os membros do Projeto Jaguar, uma das soluções para o problema da falta de espaço é a criação de um corredor ecológico na Serra do Mar, estendendo-se até Pedro de Toledo, no Vale do Ribeira, para aumentar o espaço e a conexão entre as áreas protegidas. “Hoje, a onça está isolada, não cruza a Rodovia Padre Manoel da Nóbrega. É necessário abrir um corredor ecológico de qualidade. A Rodovia dos Imigrantes, por exemplo, deu certo ambientalmente porque foi construída por dentro das montanhas. Nesse sentido, uma de minhas propostas para a nossa região é fazer túneis por baixo da pista da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, em locais próximos a Itariri, Pedro de Toledo e toda a região do Vale do Ribeira, para passagem dos animais. Esses túneis, muito comuns na Europa como passadores de fauna, possibilitam que os felinos e diversos outros mamíferos possam fazer a transposição de acordo com o seu próprio habitat”, afirma o pesquisador.
A pesquisa
O biólogo desenvolveu seu estudo por meio de registro de vestígios indiretos de sinais de felinos, ou seja, pela coleta de presas e identificação de pegadas. Também são analisadas fezes de carnívoros, carcaças, crânios e odores. Por outro lado, foram entrevistados moradores da região, que tiveram algum tipo de contato com o animal. Martins usa, ainda, filmadoras e câmeras fotográficas ativadas por sensor infravermelho de movimento e calor, pelas quais as fotografias são tiradas automaticamente toda vez que algum animal passa à sua frente.
“A menor parte da pesquisa é feita em campo”, revela. Segundo ele, para cada 10 horas que passa na floresta, são necessárias outras 200 horas de estudos e análises em escritório e laboratório. “Na mata, fazemos registros fotográficos dos rastros e, assim, conseguimos quantificar cada espécie pela individualização de suas pegadas, além de usar os demais recursos já citados”.
Dados oficiais
Segundo Beatriz de Mello Beisiegel, analista ambiental do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação dos Mamíferos Carnívoros (Cenap), órgão integrante do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia federal criada a partir da reestruturação do Ibama, atualmente não há qualquer estudo oficial publicado sobre a quantidade de onças-pintadas e outros felinos na Mata Atlântica do litoral paulista.
Ela, que conhece o trabalho desenvolvido por Rogério Martins, em Peruíbe, acredita que a estimativa do pesquisador esteja correta. Há dois anos, Beatriz – em parceria com o colega Eduardo Nakano – iniciou o projeto de unidades de conservação da espécie no Vale do Ribeira, para realizar a contagem das espécies felinas. Em breve, também contarão com o auxílio do pesquisador Rogério Martins no projeto. “Ele aceitou nosso convite e integrará nossa equipe quando formos para aquela região”. Ela acredita que, em até quatro anos, tenha concluído o projeto.
“Nossa primeira estimativa, feita por meio de estudos no Parque Estadual Carlos Botelho, é que, para cada 100 km2, haja entre 0,62 a 0,84 onças-pintadas”, revela a pesquisadora, que utilizou como principal recurso as armadilhas fotográficas. “Usamos duas máquinas fotográficas – uma de cada lado da trilha – para registrar os dois perfis do animal e, assim, reconhecê-lo. No caso das onças-pintadas isso não é difícil, porque elas possuem padrão de pelagem individualizado, o que significa que nenhuma onça é igual a outra, quanto ao seu padrão de manchas”, explica.
O coordenador executivo da ONG Instituto PróCarnívoros, Ricardo Boulhosa, diz que pesquisar a onça-pintada na região do Vale do Ribeira é muito complicado e gera custos elevados. “Essa área da Mata Atlântica tem vários relevos que formam vales muito encaixados. Geralmente, usamos radiotelemetria para identificar a presença do animal, mas, neste caso, a onça pode estar bem próxima a você e não ser identificada por estar numa área encaixada em que a telemetria não alcança”, explica. Boulhosa afirma que, em até dois anos, a situação deverá mudar, pois haverá o ingresso de novas tecnologias. “Em breve, contaremos com GPS e satélite que nos ajudarão a melhorar a pesquisa feita nessa região”.
Novos pesquisadores
Rogério Martins também é professor da rede pública, dos ensinos fundamental e médio. Muitos alunos, que passam a conhecer a problemática do felino, engajam-se na causa. “Tenho procurado incentivar a pesquisa entre as pessoas. É necessário formarmos novos pesquisadores para que haja a conservação do animal, que foi extinto em muitas áreas por falta de conhecimento”, diz.
Há quatro anos, Martins se valeu de um bimestre inteiro para ministrar ensinamentos sobre a ecologia dos mamíferos. Alunos entre 13 e 17 anos coletaram informações em livros, revistas, internet e em campo sobre a espécie. “Isso resultou num calhamaço de papel, mas também despertou o interesse de 69 alunos. Mesmo encerrando o projeto em sala de aula, eles optaram por continuar a pesquisa fora do horário escolar. Esses alunos serão coautores de meu livro”, diz.
Martins, que pesquisa mamíferos desde 1996, afirma que não pretende parar. “Não dá para cessar a investigação, enquanto a onça-pintada estiver ameaçada de extinção. Por isso, tenho procurado transmitir meus conhecimentos e aprofundá-los. Com a autorização dos pais, meus alunos fazem pesquisas junto comigo, e estou sempre participando de novos cursos para conhecer melhor o assunto. Meu projeto é fazer mestrado, defendendo a criação de corredores de fauna na Baixada Santista e Vale do Ribeira – que é uma das coisas que podem ser feitas para evitar o desaparecimento do felino. Para isso, tenho buscado parceiros e patrocinadores”.
Mas ir a campo não é para qualquer um. Martins tem espírito aventureiro; quando não está na mata a trabalho, está por diversão. Tanto, que formou a equipe Jaguar de Trekking. “Para mim, tudo é muito natural, porque amo estar na natureza. Muitas vezes, trabalho dias sem encontrar nada, nenhum rastro de animal, e tem lugares na mata que não são receptíveis. Isso sem contar os riscos como o de se encontrar cobras ou começar a chover a ponto de alagar a planície e você ficar isolado na região por causa da água, e ainda perder o caminho da trilha, que some depois da chuva. São situações que podem ser desanimadoras para os que não estão acostumados”.
Serviço: conheça mais sobre o Projeto Jaguar pelo site www.projetojaguar.com.br, ou entre em contato com o professor Rogério pelo e-mail rogerio@projetojaguar.com.br.
Também conhecida como jaguar, é o símbolo da fauna brasileira. Apesar de muito parecido com o leopardo, esse felino apresenta manchas mais dispersas e rosetas maiores que as do leopardo, algumas delas com pontos pretos no meio. O interior dessas manchas é de um dourado/amarelo mais escuro que o restante da pelagem. O animal adulto alcança até 2,60 m de comprimento, chegando a pesar em torno de 115 quilos.
Onça-parda
É o segundo felino mais pesado do mundo. Também conhecido como puma, é uma espécie solitária e adaptável, e pode ser encontrada na América do Norte, Central e Sul. Habitat: Montanhas, florestas tropicais, cerrados. Uma hábil predadora, a onça-parda possui uma variedade de presas. Pode se alimentar de animais grandes, como gado, cavalos e ovelhas, mas também caça espécies pequenas como insetos e roedores.
Prefere habitats com vegetação rasteira densa e áreas rochosas, mas pode viver em áreas abertas. É um animal recluso e normalmente evita pessoas. Os ataques a seres humanos permanecem raros, apesar de um aumento recente na frequência, por conta dos desmatamentos. O animal adulto varia de 60 até 75 k, podendo chegar a 100 quilos.
Gato-do-mato pintado
Felino originário da América Central e América do Sul. Alimenta-se de ratos, pássaros e insetos, e mede cerca de 50 centímetros. Embora semelhante à jaguatirica, com a qual é comumente confundido, o gato-do-mato se distingue pelo pequeno tamanho e pelas manchas em sua pelagem.
É o menor dos felinos silvestres brasileiros e suas manchas rosetas são parecidas com as da onça, porém sem o desenho completo, mantendo geralmente um lado aberto, enquanto a jaguatirica tem manchas alongadas, que dão à sua pele a impressão de ser listrada.
Gato maracajá
Tem como principal característica a cauda mais longa do que seus membros posteriores. Os pelos são amarelo-escuros nas partes superiores e na parte externa dos membros. Tem manchas sob a forma de rosetas com uma região central amarela, da cabeça à cauda.
Entre suas habilidades pode caminhar nas pontas dos galhos dos arbustos. Ele também possui grande capacidade de salto e suas garras são proporcionalmente mais longas do que as da jaguatirica. Tem capacidade de virar até 180 graus as articulações do tornozelo, o que o possibilita transitar com facilidade entre troncos e árvores. Seus hábitos são noturnos e alimenta-se de pequenos roedores e aves, que caça nas árvores.
Jaguatirica
Originariamente encontrada na Mata Atlântica e outras matas brasileiras. De hábitos noturnos, passa a maior parte do dia dormindo nos galhos das árvores ou escondida entre a vegetação. Vive aos pares, o que é raro entre os felinos. Também é chamada de onça-pintada, no entanto, a onça é maior, podendo atingir 2,10 m. A jaguatirica mede entre 65 cm e um metro de comprimento, fora a cauda, que pode chegar a 45 cm. Pesa entre 8 e 16 quilos. Alimenta-se de mamíferos pequenos e médios, como roedores, macacos, morcegos e outros. Come também lagartos, cobras e ovos de tartarugas. Caça aves, e algumas são boas pescadoras.
Está desaparecendo pela ação dos caçadores que querem sua linda pele. O mercado negro é alimentado pelo costume adotado em muitos países de transformá-lo em animal exótico e de estimação.
Jaguarundi
É um mamífero que possui cerca de 60 cm de comprimento de corpo, 45 cm de cauda e pesa 6 quilos. Tem orelhas e pernas curtas e pelagem de coloração marrom pardacenta uniforme e salpicada com pontinhos mais claros na maior parte do corpo (a ponta dos pelos é de cor mais clara), havendo muita variação individual. Também é conhecido pelos nomes de eirá, gato-mourisco, gato-preto e maracajá-preto.
O jaguarundi vive em bordas de banhados, beira de rios ou de lagos, sendo também encontrado em lugares secos, com vegetação aberta. Sua alimentação pode ser tanto de mamíferos como de aves, porém prefere presas de grande porte.








