Os arredores da Ilha da Queimada Grande, em Itanhaém, são um dos lugares preferidos para a pesca amadora de peixes como caranhas, badejos e garoupas. Mergulhadores também costumam frequentar a área, onde as águas são claras, permitindo a visibilidade do reino de Netuno em até 40 metros de profundidade, com direito, inclusive, de ver os restos dos navios mercantes Rio Negro e Tocantins, naufragados, respectivamente, em 1893 e 1933. Num dia de sorte, também é possível se deparar com golfinhos nariz de garrafa.
Texto Flávia Souza
Das estimadas 15 mil cobras existentes na Queimada Grande, apenas cerca de 2.300 são da espécie jararaca-ilhoa Mas, adentrar a Ilha da Queimada Grande não é nada convidativo. Na verdade, o desembarque em terra é proibido. O motivo? Seus intratáveis habitantes, as venenosas cobras jararacas-ilhoa.
Jamais um bioma teve protetores tão temidos. Pescadores e mergulhadores sabem disso e respeitam a lei natural. Foram esses homens do mar, aliás, os responsáveis pelo nome da ilha. Cientes do perigo de desembarcar em terra firme, eles ateavam fogo na mata costeira para afugentar as serpentes, tidas como pragas até pouco tempo atrás. Com isso, conseguiram batizar a ilha, mas não ameaçaram o reinado das víboras.
Parentes das jararacas continentais, as cobras da ilha possuem um veneno cinco vezes mais forte do que as da costa. Propagam-se informações de que a saliva das suas glândulas é a mais venenosa do mundo. Mas a bióloga Karina Kasperoviczuz, responsável pelo Laboratório Especial de Ecologia e Evolução do Instituto Butantan, esclarece: “A ilhoa só é mais venenosa que as outras espécies para as aves, não para os mamíferos.”
A ilha possui uma das maiores densidades populacionais de víboras conhecidas no mundo. Localizada dentro de uma área de proteção ambiental (a APA de Cananéia – Iguape – Peruíbe), ela também é considerada Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE), desde 1985. Das estimadas 15 mil cobras existentes na Queimada Grande, apenas cerca de 2.300 são da espécie ilhoa. As demais são jararaquinhas dormideiras – cobras não venenosas, que servem de jantar para a jararaca-ilhoa jovem.
São 430 mil m2 de área de Mata Atlântica, habitados quase que exclusivamente por serpentes. Também vivem ali duas espécies de morcego, duas de anfíbio, três de lagarto e duas de réptil subterrâneo. Dentre as aves, só a curruíra e a cambacira fixaram residência no local. As demais aves marinhas só frequentam a ilha, assim como as 30 espécies de pássaros migratórios.
Sobrevivência
Sabe-se que a maioria das cobras se alimenta de roedores, mas, como a ilha não possui ratos, as ilhoas tiveram que se adaptar para sobreviver. A bióloga Karina Kasperoviczuz explica: “Elas desenvolveram características biológicas próprias, que as distinguem das outras jararacas. Como não há pequenos mamíferos terrestres na ilha, a alimentação da espécie é baseada no consumo de pássaros. Com isso, tornaram-se arborícolas e agem mais durante o dia, para facilitar a captura das aves.”
Outra distinção é a falta de camuflagem em sua coloração. As víboras da ilha são amarelas e não se camuflam. “Acredita-se que isso acontece porque elas vivem num lugar onde também não há predadores”, diz Karina.
Considerada ameaçada de extinção pelo governo de São Paulo, a ilhoa só existe na Queimada Grande. A quantidade de cobras por metro quadrado na ilha assusta boa parte da população mundial, mas é um fator que também atrai a atenção de contrabandistas de animais silvestres, que capturam a espécie para vendê-la por cerca de US$ 30 mil a unidade, segundo pesquisadores do Butantan.
O preço alto é pago por excêntricos que desejam usar a serpente como bicho de estimação e também por alguns pesquisadores do mundo todo. Eles estão interessados em descobrir o que pode vir do caldeirão existente nas glândulas das ilhoas. Profissionais do Butantan também realizam pesquisas com a espécie, mas ainda não há qualquer produção feita a partir desse veneno.
Farmácias vivas
A indústria farmacêutica mundial vê nossas serpentes como alguns dos tesouros da biodiversidade brasileira. Isso acontece porque as proteínas do veneno das jararacas têm alto interesse biomédico, devido às suas muitas possibilidades. Soros antiofídicos são fabricados a partir das toxinas encontradas em suas glândulas. Um importante medicamento para hipertensão também é produzido tendo como matéria-prima o veneno da jararaca.
Da cascavel, tira-se uma enzima que é usada para soldar tecidos biológicos. Funciona como um tipo de cola de pele que substitui os pontos na hora de fechar ferimentos ou cortes.
Como algumas das proteínas contidas nos venenos são exclusivas, os cientistas estudam o veneno na esperança de encontrar outros tesouros, substâncias que levem à descoberta de novos produtos farmacêuticos. Eles estão focados na produção de analgésicos, remédios contra câncer e outras doenças associadas ao coração, como a trombose. E não é apenas o veneno da ilhoa que está em estudo. Toxinas de cobras de toda a Mata Atlântica estão sendo analisadas com afinco. Mas o tempo entre pesquisa e produto final pode levar décadas.
O trabalho dos pesquisadores mostra que, na medicina, a história é um pouco diferente da apresentada pela mitologia. Nesse paralelo, o animal que foi amaldiçoado por oferecer o fruto à Eva, fazendo com que a primeira mulher relatada na Bíblia caísse em tentação, hoje é visto como um ser de inúmeras possibilidades. Seu veneno pode matar, mas também proteger e salvar vidas.
No continente
Estima-se que na Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos do mundo em diversidade de fauna e flora, vivam mais de 150 espécies de cobra. A extensão paulista da Serra do Mar conta com 84, mas apenas seis das espécies são peçonhentas. Além da ilhoa, a jararaca, jararacuçu, jararaca de alcatrazes e dois tipos de coral. Algumas dessas espécies podem ser encontradas nas áreas urbanas, isso porque o rico mosaico ambiental em que elas vivem está cada vez mais reduzido.
Segundo dados do Centro de Vigilância Epidemiológica “Alexandre Vranjac” (CVE), em 2010 foram registrados 1.752 acidentes por serpentes no estado de São Paulo. A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que mais de 5,4 milhões de acidentes por animais peçonhentos ocorrem a cada ano.
Para combater os sintomas da picada e evitar a morte é preciso agir rápido, explica o biólogo Giuseppe Puorto, diretor do Museu Biológico do Instituto Butantan. “Em caso de acidente com qualquer tipo de cobra é preciso, primeiramente, manter a calma para raciocinar e não fazer besteira”, alerta.
O segundo passo é lavar o local atingido com água e sabão, para evitar infecções secundárias. E só então procurar um serviço médico. “As pessoas têm que ter em mente que amarrar, fazer torniquete, sugar ou cortar o local atingido pode ser ainda mais prejudicial. O ideal é que procurem o mais rápido possível o hospital de sua cidade para receber atendimento adequado”, diz Puorto.
Ele explica que, um ótimo atendimento é quando acontece entre seis e 10 horas após a picada, mas excelente mesmo, é entre três e quatro horas. “Quanto mais rápido for o atendimento, menores serão as sequelas”, diz. Ele ainda lembra que há um soro antipeçonhento específico para cada espécie de veneno. “O médico sabe qual soro usar pelos sintomas do paciente. Os sinais se diferenciam um do outro, o que dá clareza para o profissional de saúde.”
As informações dadas pela pessoa picada também ajudam a conhecer o animal que a atacou, isso porque cada serpente tem a sua característica. A maioria das jaracuçus, por exemplo, é terrícola e se alimenta de roedores. Já as jararacas são difíceis de enxergar, pois se camuflam no ambiente.
As corais costumam ser mais reservadas e se escondem em folhagens ou embaixo de pedras e troncos. “As cobras corais se dão ao luxo de aparecer com suas cores vermelha, branco e preta, isso adverte quem está próximo. Assim, o número de acidentes com corais é de 0,5%, já com jararacas são mais de 90%”, revela Puorto.
Parentes das jararacas continentais, as cobras da ilha possuem um veneno cinco vezes mais forte do que as da costa.
Jaracuçu, uma das seis espécies peçonhentas da porção paulista da Serra do Mar.







