A questão, na verdade, já está definida. O conceito de proteção ambiental aponta o caminho pelo qual a cidade deve caminhar e, para tanto, é chegado o momento de traçar os rumos de seu desenvolvimento. Um trabalho que precisa da contribuição de administradores, legisladores e cidadãos.
Texto Eleni Nogueira
fotos: Mar Franz
Até dezembro do ano passado, divulgava-se Bertioga como sendo um município privilegiado, graças aos 85% de área destinada à preservação ambiental. Agora, após a criação do Parque Estadual Restinga, que lhe conferiu nada menos que 91, 25% de área preservada, não há mais o que discutir, seu destino está traçado: uma cidade verde na plenitude de seu sentido.
As áreas protegidas de Bertioga formam um vasto conjunto de ecossistemas como Mata Atlântica, mata de restinga, mata de encosta, mata paludosa e manguezal. No interior dessa grande área de cobertura vegetal, encontra-se uma variedade incomum de fauna e flora, que abriga, inclusive, espécimes pertencentes à lista de extinção, ou ainda desconhecidos pela ciência.
Há que se falar, ainda, no rico manancial hídrico formado pelas principais sub-bacias da Bacia Hidrográfica da Baixada Santista, responsáveis pelo abastecimento de água do município, e com potencial para abastecer outras cidades da região.
Bertioga, por todas estas características, figura como um verdadeiro “pulmão verde” do estado de São Paulo. Preservar estes ecossistemas pode significar garantia de investimentos, já que, hoje, muitas empresas buscam aliar suas marcas a municípios verdes, que tenham políticas ligadas à preservação ambiental.
Plano Diretor
Aos 20 anos de emancipação político-administrativa, completados dia 19 deste mês, chega o momento de atualizar o Plano Diretor do município para a nova realidade e prepará-lo para o desenvolvimento que se avizinha: crescimento regional com a expansão dos portos e as expectativas geradas a partir da descoberta da camada do pré-sal, na Bacia de Santos. “Tudo isso influencia no desenvolvimento da cidade e deve fazer parte das discussões”, diz o secretário municipal de Habitação, Planejamento e Desenvolvimento Urbano José Marcelo Ferreira.
José Marcelo aponta, como temas prioritários para as discussões, as diretrizes voltadas para os investimentos em infraestrutura urbana. “Parte do orçamento do município poderia ser destinada para investimentos em macro e microdrenagem, por exemplo. As pessoas cobram asfalto nas ruas, mas não sabem que não se pode asfaltar sem antes concluir esses projetos, que são de suma importância”.
Sobre a verticalização da orla da praia, José Marcelo é contundente: “O gabarito é o final da equação. Tem gente que acha que o Plano Diretor é só isso, o que acaba gerando especulação imobiliária. As diretrizes são muito mais importantes do que os índices urbanísticos”.
O presidente da Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bertioga, engenheiro Marcelo Godinho Lourenço, ressalta que a entidade se preocupa com o que a cidade pode oferecer a seus habitantes e turistas temporários no futuro próximo. “A rodovia Rio-Santos já está saturada e precisamos estudar propostas para permitir a melhor circulação de veículos dos que aqui residem, em detrimento dos que apenas passam pela entrada da cidade. Vias marginais são essenciais para desafogar esse trânsito, criando também corredores para o transporte público, além de ciclovias”.
Potencial de desenvolvimento
A região central da cidade é um bom exemplo da pressão urbana que já começa a alterar sua geografia. Basta observar o aumento de condomínios verticais recém-construídos ou em fase de implantação, preferencialmente de frente para o mar. O perfil dos novos empreendimentos demonstra que os investidores apostam no potencial de desenvolvimento do município.
Mas o que move toda essa movimentação? A revitalização do calçadão da orla, com projeto assinado pelo renomado arquiteto Ruy Ohtake, a possibilidade de verticalização – a ser discutida na reformulação do Plano Diretor -, além das expectativas de crescimento geradas pela exploração da camada do pré-sal, são apontados como os principais atrativos para a construção civil no momento.
“Bertioga está passando por uma grande transformação”, afirma José Luiz Hirota, um dos sócios da Costa Hirota, construtora que tem forte atuação na Riviera de São Lourenço desde 1986 e que, agora, aposta no mercado da região central de Bertioga. Prova disso é a aquisição de três áreas na praia da Enseada, as quais darão lugar a edifícios com o mesmo padrão do premiado empreendimento. “Nós detectamos que o centro de Bertioga tem muitas possibilidades, principalmente por conta da revitalização da orla e da proximidade da região com o escritório da Petrobras, em Santos. Apostamos nesse potencial comprador”.
O empresário da construção civil Marcos Quintana também acredita nesse novo tripé de desenvolvimento. A empresa da qual é sócio, a Montmann & Gomes Engenharia, está com um empreendimento em fase de acabamento e prevê lançamento de três novos prédios, todos com padrão de construções sustentáveis. “Não tenho dúvidas de que a nova orla vai alavancar o desenvolvimento da cidade. É um projeto que só merece elogios e deve valorizar aquela área. A verticalização também vai dar melhor aproveitamento para a região da orla”, diz.
Atmosfera turística
Abundante em rios, trilhas, serras, mangues, fauna e flora, e ainda contemplada com monumentos históricos de grande relevância nacional, como o Forte São João, que data de 1532, e a centenária Usina Hidrelétrica de Itatinga, ambos em perfeito estado de conservação, Bertioga tem potencial para se tornar uma estrela do ecoturismo, segmento que, segundo a Organização Mundial do Turismo, cresce mais de 20% ao ano, enquanto o turismo tradicional atinge 7,5%.
Um novo atrativo pode surgir com o projeto Passos dos Jesuítas – Caminhos de Anchieta, em fase de criação por parte do governo do estado. O secretário estadual de Turismo Márcio França destaca Bertioga neste cenário. “Trata-se de um roteiro de peregrinação e contemplação criado em homenagem a esses personagens históricos, que será feito com acompanhamento digital on-line dos principais pontos pelos quais o turista passa. Em Bertioga, os peregrinos têm como parada quase que obrigatória o belo Forte São João e a Praia da Enseada. Isso significa a chegada de dezenas de novos turistas para conhecer as belezas naturais e ecológicas da região”.
Por todos estes atributos, fica clara a urgência da participação da sociedade como um todo para enfrentar os desafios dos próximos meses. Uma tarefa que requer seriedade e atuação.
