Há várias rotas que permitem fazer essa peregrinação mística, mas a principal sai daqui do litoral, mais precisamente da cidade de São Vicente, com destino à capital. De lá segue pelas Avenidas Jabaquara, Paulista e Rebouças, margeia o rio Pinheiros e sobe o rio Tietê, até Itu. Depois cruza o estado do Paraná, de Leste a Oeste, até entrar no Paraguai. Após atravessar a Bolívia e ultrapassar a Cordilheira dos Andes, chega à cidade de Cuzco, no sul do Peru, já na costa do Pacífico, onde se erguem as ruínas de Machu Picchu.
Texto Flávia Souza
fotos: Diário de Motocicleta
O trajeto transcontinental é uma das estradas históricas mais importantes da América do Sul, e percorre, atualmente, longas rodovias, corta matas e rios, supera cataratas, pântanos e cordilheiras. No passado, esse caminho formava uma estrada “larga de oito palmos (1,60m), com mais de 200 léguas (1.200 km) de comprido” (de acordo com Eduardo Bueno, em seu livro Náufragos, Traficantes e Degredados, Coleção Terra Brasilis, Vol.II). Para evitar o efeito erosivo da chuva, os índios guaranis plantavam pela trilha uma gramínea chamada puxa-tripa, que evitava que o caminho fosse encoberto pela mata. Peabiru, em tupi-guarani, significa caminho forrado, caminho pisado, caminho sem ervas, caminho que leva ao céu.
Existe a crença de que o Caminho de Peabiru foi construído a partir de orientação celeste, já que os índios creem que a Terra Sem Mal pode ser alcançada seguindo a Via Láctea. O que faz todo sentido, já que o trajeto segue um sentido diagonal (do interior para o litoral brasileiro) e não Leste/Oeste ou Norte/Sul como a habitual orientação. Curiosamente, os antigos egípcios, gregos, indianos e incas também viam a Via Láctea como um caminho. Atualmente, restam apenas alguns vestígios do que um dia foi este trajeto. Em seus trechos mais complicados, a rota chegou a ficar oculta pelas pedras; em outras partes havia sinalização demarcada por inscrições rupestres, símbolos e mapas de procedência indígena.
Não se sabe ao certo a origem do trajeto, similar aos Caminhos de Santiago, que afluem de toda a Europa, se encontram com caminhos espanhóis e seguem em direção à cidade de Santiago de Compostela. Historiadores dizem que o Caminho de Peabiru começou a ser construído entre 100 A.C. e 800 D.C. “Essa trilha não é uma lenda. Apesar de o seu trajeto no estado de São Paulo estar ocupado hoje por estradas, no Paraná ainda há trechos que comprovam sua existência”, diz o historiador Marcos Braga, coordenador da Casa Martim Afonso, em São Vicente.
Na verdade, tratava-se de uma rota comercial feita aqui pelos índios, na maioria, guaranis e carijós e, no Peru, pelos incas. Segundo Braga, a notícia da descoberta desse caminho foi um dos motivos que incentivaram Martim Afonso de Souza a vir para o Brasil, onde fundou a Vila de São Vicente, em 1532. “Na Europa dos séculos XVI e XVII, falava-se da existência do reino de ouro e prata do rei branco (N.R.: trata-se do rei inca Huayna Capac). Então, quando os europeus ouviram falar sobre o Caminho de Peabiru, logo concluíram que era esse o meio de chegar ao reino
da lenda”
Os desbravadores
Pelo caminho por onde teriam passado os conquistadores espanhóis, os jesuítas das reduções, os bandeirantes paulistas nos séculos XVI e XVII e mesmo os pioneiros desbravadores do final do século XIX, passam hoje motociclistas aventureiros.
Este é o caso do casal Gustavo Dias (Guga) e Elda Silveira, que fez da aventura de trilhar o Caminho de Peabiru um projeto intitulado Diário de Motocicleta. Assim, no dia 31 de julho, a dupla saiu do Parque Cultural Vila de São Vicente, rumo a Machu Picchu, aonde chegaram no dia 27 de agosto. Dos dias 4 a 9 de outubro, a equipe contará mais detalhes dessa aventura no Salão Duas Rodas, que acontecerá no Pavilhão de Exposições do Anhembi, na capital paulista.




