Embora existam várias hipóteses sobre o início da ocupação humana no Brasil, não há muitas provas concretas sobre como ela ocorreu.
Por Maria Carolina Ramos
Atualmente, a teoria mais aceita é a de que tudo começou com os contemporâneos de Luzia, nome dado a um fóssil humano, na verdade uma cabeça, com idade estimada entre 11.400 a 16.400 anos atrás, descoberto na região de Lagoa Santa, Região Metropolitana de Belo Horizonte, em Minas Gerais, em 1975. A elucidação desse passado primevo e ainda obscuro pode estar entre os vestígios guardados em sambaquis, depósitos constituídos de material orgânico e calcário produzidos pelos povos pré-históricos que habitaram vários pontos do litoral brasileiro.
O sambaqui considerado até agora o mais antigo do Brasil data de oito mil anos e fica na Ilha do Cardoso, litoral sul de São Paulo. São quase quatro mil anos a menos do que a idade estimada do fóssil de Luzia. “Como será que os sambaquieiros chegaram ao litoral? Talvez um ramo do grupo dessa primeira brasileira tenha parado no centro do Brasil e, depois, prosseguido para essa região? Ou realmente ocorreu uma divisão de um ponto comum da região da Amazônia, no qual surgiram dois ramos que colonizaram concomitantemente o litoral e o interior do Brasil?”, questiona o arqueólogo Manoel Gonzalez, que estuda os sambaquis do litoral paulista e coordena projetos de pesquisa sobre esses achados.
O litoral paulista, aliás, abriga não só o sambaqui mais antigo do Brasil, como também dois dos três mais altos do mundo. Um deles é o do Guarujá, o sambaqui Monte Cabrão, localizado na região do Rio Crumaú, com 31 metros de profundidade por 100 metros de largura e registrado no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan); o outro com 20 metros de profundidade, descoberto há cerca de três anos, encontra-se em Cubatão, dentro do Parque Ecológico Cotia-Pará. O segundo maior sambaqui do mundo está em Garopaba do Sul, em Santa Catarina, e alcança 22 metros.
Os sambaquis do Rio Crumaú e do Cotia-Pará, em Cubatão, ainda não começaram a ser estudados, em parte por conta da falta de recursos financeiros para a pesquisa. Outros sambaquis, ainda submersos e localizados no Canal de Bertioga, também aguardam para ser explorados. De acordo com Gonzalez, as informações que vierem à tona com o estudo desses sambaquis do litoral paulista poderão esclarecer questões ainda em aberto sobre a ocupação humana no Brasil, como, por exemplo, se esses primeiros habitantes do litoral eram aparentados ao grupo de Luzia, tida como a primeira brasileira.
Parque arqueológico

Em todo o Brasil já foram descobertos cerca de 1000 sambaquis. No litoral paulista estima-se que haja 60, pelo menos 10 com potencial turístico
De acordo com informações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), já foram descobertos cerca de 1000 sambaquis em todo o Brasil. A maior parte deles está situada em Santa Catarina. No litoral paulista, o arqueólogo Gonzalez estima que haja 60 sambaquis, pelo menos 10 com potencial turístico. No entanto, por enquanto, apenas um – o da Casa Martim Afonso, em São Vicente é aberto ao público. Os problemas de visitação a esses sambaquis espalhados pelo litoral ocorrem principalmente em função de sua localização isolada ou pela ausência de suporte previsto em projetos turísticos e culturais.
Há um projeto da Secretaria Municipal de Cultura de Cubatão, que pretende tornar acessível o terceiro maior sambaqui do mundo, localizado no Parque Ecológico Cotia-Pará, em Cubatão. A proposta promove essa área ao status de primeiro parque arqueológico do sudeste do Brasil.
O Parque Ecológico Cotia-Pará, com 500 mil metros quadrados, e cuja entrada é acessível entre os quilômetros 55 e 56 da via Anchieta, guarda, além de uma pequena parte do que restou da Mata Atlântica, o Cotia-Pará 2, nome dado ao sítio arqueológico onde está o terceiro maior sambaqui do mundo, com cerca de cinco mil anos. Além dele, há também um sambaqui bem menor, no sítio arqueológico Cotia-Pará 1. Seu estado de preservação, no entanto, não se equipara à integridade do Cotia-Pará 2, situado em uma região de mangue bem mais distante da entrada do parque.
A proposta do projeto é que, com a criação do Parque Arqueológico, o Cotia-Pará 1 seja utilizado para fins didáticos. “Como ele está em um trilha ecológica, a proposta é que contribua com o trabalho de educação patrimonial dos visitantes, já que eles terão a oportunidade de compará-lo com a integridade do sambaqui Cotia- Pará 2 e, assim, ganharem outra perspectiva a respeito da importância da conservação desses sítios”, comenta Gonzalez. Além dos sambaquis Cotia-Pará 1 e 2, Cubatão tem ainda outros sete sambaquis.
Costa paulista

Arqueólogo Manoel Gonzales estuda os sambaquis, depósitos constituídos de material orgânico e clacário produzidos pelos povos pré-históricos, que habitaram o litoral brasileiro
Boa parte dos sambaquis da costa paulista já foi depredada, principalmente devido à retirada de conchas encontradas nesses depósitos. Esse material, rico em calcário, era utilizado na construção civil, principalmente nos casarios coloniais. “Essa destruição já ocorria na época da colonização e continuou até pouco tempo, principalmente com a construção de rodovias”, explica Rossano Lopes Bastos, arqueólogo do Iphan. Desde 1961, essa prática é proibida pela lei federal 3.924, que dispõe sobre os monumentos arqueológicos e pré-históricos e, entre outras determinações, define que a exploração econômica dos sambaquis não pode ocorrer antes de pesquisas prévias. Depois dessa lei, outras medidas legais foram criadas de forma a aprimorar a preservação desse tipo de monumento arqueológico. Na opinião de Lopes, esse conjunto legal coloca o Brasil na posição de vanguarda quando o assunto é arqueologia.

