Close

Not a member yet? Register now and get started.

lock and key

Sign in to your account.

Account Login

Forgot your password?

A memória de um povo

A memória de um povo

Condomínios de alto padrão, hotéis de luxo e restaurantes sofisticados dominam o cenário da avenida que corta a praia de Maresias, uma das mais badaladas do litoral paulista, localizada na costa sul do município de São Sebastião. O desenvolvimento na região, alavancado pelo boom turístico, modificou completamente as características do bairro. O antigo caminho de terra tornou-se uma importante rodovia que liga o estado do Rio de Janeiro à cidade de Santos, em São Paulo (Rio-Santos – BR 101). A especulação imobiliária foi inevitável e, com o tempo, os caiçaras tiveram que se mudar para terrenos mais afastados da praia. 

Texto e Fotos Helton Romano 

Uma edificação, porém, resistiu às transformações: a Capela São Benedito, que recentemente festejou 100 anos de existência. Construída basicamente de tijolos de barro, mantém sua forma original e traz influências coloniais. 

Modelos semelhantes são verificados nas capelas erguidas em outras praias de São Sebastião. Elas estão protegidas por lei e algumas, como as de Boiçucanga, Barra do Sahy, Toque-Toque Grande e Toque-Toque Pequeno, além da centenária de Maresias, ainda guardam muito da singeleza de suas construções originais. 

As capelas são frutos do esforço das comunidades caiçaras num período dominado pelo isolamento e pela economia de subsistência na região. Embora possuam o mesmo perfil, cada uma tem suas peculiaridades, que enriquecem ainda mais a história e o valor cultural destas edificações religiosas. Tanto que existe uma lei municipal (nº 943/94) que as determina como áreas de interesse histórico-cultural. 

 Sem padresTradicional divisa de terras entre as tribos tupiniquins e tupinambás, Boiçucanga é um dos mais antigos povoados da região. A devoção à Nossa Senhora da Imaculada Conceição remonta ao século XVIII, quando existia na localidade uma pequena capela de pau-a-pique. Tendo ruído no início do século XX, uma nova capela foi construída na mesma área na década de 1950, e permanece celebrando missas até hoje. 

Maria Perciliana guarda histórias da capela de Boiçucanga

Mas, naquela época, não havia padres na região e o jeito era recorrer a improvisações. Maria Perciliana de Matos, 96 anos, lembra de um senhor portador de deficiência visual que, não por acaso, era conhecido como Antonio Cego. Ele morava em Paúba (a 12 quilômetros de Boiçucanga) e, vez ou outra, desempenhava a função de padre na capela de Boiçucanga. “Ele era o único que sabia as rezas”, diz dona Maria. Ainda sem dispor de uma estrada, os padres que se aventuravam a ir a Boiçucanga usavam cavalos ou barcos como meio de transporte. 

  Sumiço da santa

 Em 1989, o sumiço de duas imagens de Nossa Senhora da Conceição abalou a comunidade de Boiçucanga. A maior, segundo relatos, foi trazida de Portugal por volta de 1740. A santa de 1,5 metro de altura, feita em terracota, possuía uma coroa de prata e um broche de ouro. O paradeiro das imagens jamais foi descoberto e moradores mais antigos não escondem a tristeza ao relembrar o caso. “A gente sonha com isso até hoje. Quem dera ela aparecesse”, comenta Maria Aparecida Oliveira, de 72 anos, revelando, ainda, uma ponta de esperança em tocar novamente na santa padroeira. 

A capela realiza duas festas anualmente. A primeira acontece em 29 de junho, quando uma procissão de barcos marca a tradicional Festa de São Pedro. Já o dia de Imaculada Conceição é comemorado em 8 de dezembro. As missas acontecem às sextas-feiras, a partir das 19h30. 

 Nova construção

Fotos da Capela de Maresias em 1961 e em 2011 retratam o desenvolvimento no bairro

Capela de Maresias 2011

Na década de 1950, a comunidade de Boiçucanga resolveu erguer a segunda capela do bairro, que recebeu o nome de Sagrado Coração de Jesus, já que a primeira capela estava dentro de área particular (hoje pública) e, em função disso, ela não era reconhecida pela Cúria Diocesana. 

Leilões eram promovidos para ajudar na construção da capela. A aposentada Maria Santana de Matos, de 59 anos, lembra que, certa vez, após esgotarem as prendas, um pescador teve a ideia de sortear um botão de rosa. “Ninguém sabe de onde surgiu aquela rosa, mas foi a prenda que mais deu dinheiro no dia”, garante. Maria Santana guarda até hoje um bilhete escrito pela mãe no dia 7 de setembro de 1955, relatando a inauguração da capela que recebeu o nome de Sagrado Coração de Jesus. 

Com o passar dos anos, os espaços da capela foram ficando apertados para uma população cada vez maior. No terreno ao lado, uma nova igreja, de grande porte, foi construída. Mas a antiga e charmosa capela continua a promover missas de terça a sexta-feira, às 19h30, e no domingo, às 10h e 20horas. A Festa do Sagrado Coração de Jesus ocorre na primeira semana de junho. 

 Maresias 
 

 A mais antiga da região é a Capela São Benedito, localizada em Maresias. Pode-se reconhecer nesta capela o modelo utilizado nas construções religiosas da costa sul de São Sebastião, tendo como elemento diferenciador apenas a torre lateral. A capela tem sua fachada no alinhamento da Rodovia Rio-Santos, em frente à Praça Internacional do Surf. 

O terreno onde está localizada a capela foi doado pelos familiares de Maria Aparecida Bueno. Aos 74 anos de idade, ela conta que sua mãe angariava donativos para a capela. “Essa ligação com a capela vai passando de geração para geração. Minha neta é coroinha da igreja, e é isso que mantém a tradição”. 

Promove a festa de São Benedito, no dia 5 de novembro. As missas acontecem aos domingos, às 20 horas. 

Toque-Toque Grande 

Capela de Toque-Toque Grande, onde é realizada tradicional Festa de Sant'Ana

A Capela Nossa Senhora Imaculada Conceição, em grande parte, mantém o aspecto original, sendo uma das mais conservadas de São Sebastião. Para Maria Lídia Moura, de 63 anos, trata-se do patrimônio mais valioso da comunidade. “Representa tudo. Ali está a memória dos caiçaras que fizeram a história do bairro”, diz Maria Lídia, que faz parte do coral da igreja ao lado de três jovens. 

 A capela tem como padroeiras Nossa Senhora da Imaculada Conceição e Nossa Senhora Sant’Ana. A tradicional Festa de Sant’Ana atrai muitos turistas e moradores de bairros vizinhos. A festa dura três dias com atrações musicais, barracas de alimentação, bingo e procissão.

 A festa de Nossa Senhora Sant’Ana ocorre nos dias 22, 23 e 24 de julho, e a de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, no dia 8 de dezembro. Missa: às quartas-feiras, às 19horas. 

 Toque-Toque Pequeno
 
Denominada de Capela Imaculada Conceição e Santo Expedito esta capela encontra-se em um largo ocupado por estacionamento e estabelecimentos comerciais. Com a fachada voltada para o mar, possui pequeno gramado em seu

 

Imagem histórica da cosntrução da Capela de Toque - Toque Pequeno

Capela de Toque-Toque Pequeno em seu Estado Atual

entorno. Formada por apenas um ambiente, não possui altar na parede, tão comum nas outras capelas, mas sim púlpito de concreto revestido em cerâmica. Foi construída entre 1920 e 1930, em pau-a-pique, por esforço da população. Em 1932 sofreu reforma que alterou sua fachada, mas, posteriormente, foi reconstruída em moldes semelhantes. 

Policial militar aposentado, Sebastião Marcelino de Matos Sobrinho, de 62 anos, passou a frequentar a capela depois que se casou. Hoje se orgulha de ser bastante participativo nas atividades paroquiais. “Os caiçaras estão em extinção e a capela de Toque-Toque Pequeno é uma das últimas construções que restaram do nosso povo”, declara. 

 

A festa de Nossa Senhora da Imaculada Conceição ocorre nos dias 18 e 19 de abril. Missa aos sábados, às 20horas. 

 Barra do Sahy
 

  Esta capela, que leva o nome do próprio bairro, ergue-se em local privilegiado, na margem esquerda do Rio Sahy. Na sacristia ainda se encontra o oratório da década de 1920, que funcionou como altar até a construção da capela.

 Para chegar ao local, é necessário atravessar uma passarela sobre o rio. Sergio do Amparo, de 74 anos, lembra que antes de ser construída a passarela, os fiéis utilizavam canoas. “Quando acabava a reza tinha baile ao som de viola e cavaquinho, e nas festas vinha muita gente de fora. Era muito gostoso”, recorda Amparo, sem esconder o saudosismo. 

Promove as festas de Nossa Senhora Sant’Ana, no dia 26 de julho, e de Mãe Peregrina, no dia 18 de outubro, além de missas aos domingos, às 8 horas.

 


Deixe um comentário