O crescimento gradual e constante da prática de corrida de rua é uma realidade atestada por números. A Federação Paulista de Atletismo (FPA) computou que, por final de semana, são realizadas até oito corridas de rua em todo o estado e, em 2010, o número de provas da modalidade teve o maior crescimento nos últimos quatro anos: 24,5%. Foram 374 provas realizadas em São Paulo na temporada passada, contra 301 em 2009. Nos vinte e cinco anos de realização da prova 10KM Tribuna FM, os inscritos passaram de 950 atletas, na primeira prova, para os 16 mil que percorreram as ruas de Santos, neste mês de maio.
Texto e Fotos: Flávia Souza
Fotos Pedro Rezende
É interessante notar que, na mesma proporção de crescimento, surgem atividades paralelas voltadas para a organização de tais eventos, que exigem uma grande estrutura de apoio, com a geração de inúmeros empregos diferenciados. O organizador de eventos esportivos Osvaldo Felippe Junior, da TH5 Eventos, confirma: “As corridas estão muito bem organizadas e agregam cada vez mais inscritos em suas competições; a maioria das provas oferece kits agradáveis, com camiseta confeccionada com tecido inteligente, que absorve o suor. E as pessoas querem essas camisetas para treinar”.
As corridas de rua geram negócios e desenvolvem o turismo. O organizador revela que, quando realiza competições em Santos, a lotação dos hotéis chega ao nível máximo e os restaurantes ficam mais cheios. E o mesmo acontece em outros municípios da região. “As prefeituras têm pedido mais eventos nesse segmento, pois perceberam o quanto é bom para a cidade”, acrescenta Osvaldo.
Célio Balieiro, responsável pela Cia. de Eventos, empresa que há 22 anos organiza eventos, como a Maratona de Revezamento Bertioga-Maresias, que já está em seu 7º ano, explica que essas provas não atraem apenas munícipes, mas atletas de várias partes do país. “Nessa competição, por exemplo, vem gente de todo o Brasil. E isso movimenta o comércio. Segundo ele, há 20 anos, o estado de São Paulo tinha três empresas realizadoras de eventos esportivos. Hoje são mais de 30 só na Capital.
Oportunidades
Um outro mercado de trabalho cresce paralelo à prática: o de treinadores de corrida. “Eles montam tendas, com colchonetes e equipamentos menores para desenvolver exercícios e avaliações, ainda oferecem água e isotônico. Nos finais de semana, mandam o treino da pessoa por e-mail e cobram mensalidade de academia”, diz Osvaldo.
Edney Batista, sócio da Iron Life Assessoria Esportiva, diz que só em Santos há 13 empresas nesta área. “A corrida de rua é a coqueluche da estação, pois é um esporte de fácil acesso e não requer horário específico para realizá-lo. Mas não é legal ser autodidata”, avisa Batista. Isso porque o esporte também pode ser desconfortável para iniciantes e sua prática, sem preparo físico e técnica, pode resultar em graves lesões. “Cada pessoa precisa de uma ‘receita’ específica de treino. Durante os exercícios, damos várias orientações, como técnica respiratória e postura. Ainda ensinamos o melhor jeito de pisar o pé no chão e tênis ideal. São detalhes que fazem a diferença no resultado final do treino”, explica.
A personal trainer Carine Faggiane, responsável técnica pelo Clube de Corrida Jovem Pan, assegura a importância do direcionamento nos treinos: “Com orientação adequada, a pessoa atinge seus objetivos de forma segura e dinâmica. Correr gera endorfina, que traz a sensação de prazer. Assim é muito fácil se viciar na atividade, principalmente após completar a sua primeira prova. Porque a pessoa quer ir além e enfrentar desafios maiores. Para isso treina a semana toda”.
O organizador de eventos Fernando Nogueira, da Ultra Runner Assessoria Esportiva, enfatiza que, correndo, a pessoa adquire melhor condicionamento físico. “E é esse condicionamento que faz o atleta ir além. Porque primeiro ele percorre cinco quilômetros, depois já faz 10. Quando se dá conta está treinado para uma maratona. E a pessoa que se exercita com frequência, tem maior conscientização do seu próprio corpo”.
Consciência e disciplina
Tal conscientização tem sido vista com bons olhos também dentro das empresas, que cada vez mais investem no esporte. As corporações com visão incentivam seus funcionários a praticar corrida. E, como estímulo, contratam profissionais de educação física, como meio de garantir a eficácia desses treinos.
“Os empresários notaram que a prática da corrida melhora a qualidade de vida dos seus funcionários e diminui o número de atestados. Eles percebem o quanto é importante cuidar do corpo para poder cuidar da empresa. E os empregados que praticam exercícios acabam sendo mais disciplinados e esforçados do que os que não fazem nenhuma atividade física”, diz Edney Batista, que tem em sua carteira de clientes duas grandes empresas da região.
Por sua vez, Fernando Nogueira reforça o retorno que o funcionário-atleta traz para a firma. “A pessoa que pratica esporte oferece uma boa resposta para o seu empregador, pois é mais produtiva. E, como hoje em dia as corporações também têm suas equipes de corrida, deve-se citar o retorno publicitário que as competições proporcionam, já que o atleta-funcionário corre com o logotipo da sua empresa no peito. Nesse caso, o vestir a camisa é literal”.
Socialização
Outra vantagem do esporte é que ele é democrático, pois aproxima e iguala as pessoas, o que gera respeito. “Nas provas, vemos todo tipo de gente. É o momento em que garis e ministros correm lado a lado, o que é ótimo para a socialização”, diz Batista.
Há três meses, a advogada Barbara Valle ingressou no Clube da Corrida, em Praia Grande, a fim de perder os quilinhos a mais, adquiridos durante a gravidez. “Já emagreci 12 quilos e, como amamento, o meu treino é específico. Comecei com caminhada e hoje já faço trotes (corridas leves) de até cinco quilômetros”. Ela ingressou nos treinos por achar a proposta técnica interessante, e afirma que a prática da corrida lhe trouxe outra vantagem: conhecer pessoas. “Fiz amizades durante o treino e, na prática conjunta de exercícios, me sinto mais estimulada e motivada”.
Não tem idade ideal para correr, desde que se respeitem as próprias limitações. Prova disso é a história de vida do aposentado de Praia Grande, José Cordeiro da Silva, de 80 anos. “Correr melhora a minha saúde. E além de me exercitar no solo e na areia da praia, ainda alterno corrida na água, como fisioterapia. Faço isso por recomendação médica, para tratar artrose”. Silva treina cinco dias por semana e afirma que faz até meia maratona.
Maria José Tomaz, de Guarujá, tem 52 anos e há 12 se dedica ao esporte. “Comecei para perder peso, mas gostei e aumentei gradativamente meu treino. Hoje coleciono alguns prêmios importantes. Mas o legal é que, correndo, tenho a oportunidade de conhecer outros lugares”. Ela já participou de provas em quase todos os estados do Brasil, e no exterior também.
A santista Angelina das Graças Rafael também faz parte do time que corre para viver e vive para correr. “Amo o que faço, mas confesso que a realidade do atleta que tira sua renda exclusivamente do esporte é dura. Recebo de patrocínio um salário mínimo por mês e treino todos os dias, faça sol ou chuva. Sinto que falta apoio maior das instituições para com os atletas da Baixada Santista”.
Por saúde e alegria
Nailson Ferreira dos Santos, do departamento de Corrida de Rua da FPA, diz que a prática do esporte é a moda do momento porque “correr tem sido um investimento do ser humano na saúde. Ao praticar esse exercício, as pessoas buscam qualidade de vida”, explica.
Daividson Iuspa, organizador dos 10 KM Tribuna FM-Unilus, enumera mais vantagens do exercício: “A corrida tem atraído cada vez mais participantes porque é uma atividade popular, de fácil adesão e que não demanda grande investimento. Quem pratica ainda nota que o retorno, em termos de saúde e preparo físico, é muito rápido”.
A professora Ana Maria de Sousa, de Guarujá, pratica esportes desde que era bem menina. Começou com o balé e, ao longo da vida, fez várias outras atividades. Nos últimos anos se dedicava à musculação e natação. Há poucos meses aderiu à corrida e, agora, aos 34 anos, realizou um antigo sonho: completar sua primeira prova correndo sem parar. Mesmo com os exercícios constantes, ela era obesa. Com 1,43 cm de altura, chegou a pesar 125 quilos. “Estava com o fígado comprometido. Os médicos me deram sete anos de vida. Por cinco anos, fiz todo tipo de tratamento, até chegar bem perto da morte”, conta. Em agosto passado, a professora se submeteu à cirurgia bariátrica e eliminou 60 quilos.
Os professores da Escola de Educação Especial Sérgio Vieira de Melo, de Praia Grande, também comemoram os frutos da corrida. Pela primeira vez, quatro de seus alunos participaram de uma competição. “O sorriso estampado no rosto deles ao final da prova mostra que o maior benefício está sendo alcançado: a valorização da vida”, conta o técnico Waldomiro Corrêa Júnior.
Os atletas especiais treinados por Waldomiro, com apoio do professor Adriano Ferreira da Silva, mudaram muito desde que começaram a correr. Segundo conta, a atividade trouxe mais que benefícios físicos para o grupo, que está mais disciplinado e menos ansioso. “Os alunos também estão mais confiantes e com melhor postura e maior consciência corporal. Além de ter contribuído muito para sua socialização”.
Ele continua: “Mesmo com alguma deficiência intelectual ou síndrome de down, esses alunos não estão limitados a uma condição. O esporte os tem ajudado a enxergar suas potencialidades, e eles têm lutado por mais conquistas.”
Quer começar a correr?
1º passo: consultar um médico antes de iniciar a atividade; só ele terá condições de saber se você está ou não liberado para sua prática. Miguel Naveira, de Santos, pós-graduado em medicina desportiva, enfatiza também a importância do alongamento antes dos treinos e do reforço da musculatura. “Um bom tônus muscular nos quadriceps, região lombar e dorsal garantirá mais eficácia e avanço nos treinos, sem forçar demasiadamente as articulações. Com massa muscular, o novo corredor pode ir aumentando gradativamente a distância e a intensidade do treino”;
2º passo: aconselhar-se com um educador físico já que o treino deve respeitar a idade, o sexo, a condição física e a carga de trabalho diária da pessoa. “Quem começa a correr sem orientação corre o risco de sofrer lesões e acaba tendo que desistir dos treinos por causa da dor. Isso pode ser evitado”, diz a fisioterapeuta Alessandra Gomes de Oliveira, de Guarujá;
3º passo: uso de um tênis adequado para corridas. Nas lojas especializadas em artigos esportivos, encontra-se o tênis ideal para cada tipo de pisada, que são três, determinados pelas características anatômicas: empinada, pronada e normal. Estima-se que 50% das pessoas apresentam pronação, 45% pisada normal e 5% tem empinação. Aconselha-se levar o calçado velho para que o vendedor analise o desgaste do solado;
4º passo: opte por correr na areia dura da praia, porque num solo macio o impacto é menor. No asfalto, o corredor faz mais pressão ostearticular. Quando estiver correndo, incline ligeiramente o corpo para a frente. Essa posição fará com que o atleta seja obrigado a dar o próximo passo, sendo levado pelo peso do próprio corpo para frente. Desta forma, diminui-se a curva natural da região lombar, o que reduz o impacto nesta zona, e evita possíveis dores nas costas. É preciso, ainda, dar atenção à posição dos braços, que devem estar sempre dobrados a 90º. Deve-se, também, balançá-los para frente e para trás conforme sua passada. Cerca de 30% do esforço da corrida é realizado pelos braços. Mantenha os pés mais junto ao solo possível, pois quanto mais salta enquanto corre, maior será o impacto sobre seus tornozelos, joelhos e costas;
5º passo: Um dos fatores mais importantes na corrida é a respiração. Para que o cansaço respiratório seja menor e haja uma rápida renovação de ar, é indicado a cada dois passos inspirar duas vezes.
Corridas na região
28/05 – Maratona de Revezamento Bertioga-Maresias
11/06 – 3ª Etapa Circuito das Praias – Bertioga by Night
02/07 – Desafio da Mata Atlântica A Tribuna/Cubatão
16/07 – Joven Pan Night Run – Santos
24/07 – 2ª Etapa do Circuito Beach Cross – Guarujá ou Itanhaém
14/08 – 4ª Etapa do Circuito das Praias – Riviera de São Lourenço
03/09 – Corrida das Torres – Caruara (km233 Rod. Rio-Santos)
11/09 – Meia Maratona A Tribuna/Praia Grande
15/09 – 10 KM Tia Jô – Cubatão
09/10 – 5ª Etapa do Circuito das Praias – Guarujá
22/10 – Maratona de Revezamento Bertioga-Maresias
30/10 – 3ª Etapa do Circuito Beach Cross – Guarujá ou Peruíbe
27/11 – 9.8 KM 98 FM – Guarujá
03/12 – 6ª Etapa do Circuito das Praias – Jd. Casqueiro-Cubatão


