A marca registrada do antigo lixão da Codesp, no bairro da Alemoa, em Santos, já não é mais a mesma. Conhecido pelos maus odores por abrigar resíduos oriundos do porto de Santos, o local, hoje, é um canteiro de obras com foco na preservação ambiental. Vidros, sacos plásticos, pneus, restos de comida e até mesmo embalagens de produtos agrotóxicos com prazo de validade vencido dão lugar às futuras instalações do terminal multiuso da Brasil Terminal Portuário (BTP).
Texto Sueli Alves
No próximo dia 31, a empresa encerra o processo de recuperação da área. Durante mais de dois anos, foram realizados estudos do solo, prospecção, escavação, limpeza, lavagem e retirada de detritos, depositados na região da Alemoa por mais de 50 anos, com foco na recuperação de um dos maiores passivos ambientais do país. Foram investidos 161,4 milhões de dólares nesse processo, e todo o projeto foi controlado pelos órgãos ambientais oficiais.
O projeto de revitalização utilizou um método inovador no Brasil, conhecido como remoção e tratamento “in situ”. A empresa estima que 20% do material inerte no terreno – ou 240 mil metros cúbicos – representa lixo, e será descartado em locais específicos. O restante poderá ser reutilizado na própria área depois de lavado e tratado, por uma empresa belga contratada para o serviço. “A técnica já é utilizada para recuperação de áreas degradadas em portos europeus e, atualmente, é aplicada nos terrenos onde será realizada a Olimpíada de Londres, em 2012”, diz Henry James Robinson, diretor-geral da BTP.
Todos os impactos oriundos dessa movimentação foram previstos no Estudo de Impacto Ambiental realizado pela empresa e exposto para o município antes do início das obras. Para minimizar os impactos negativos, são realizadas medidas mitigadoras e controle ambiental associados a 22 programas aprovados pelo Ibama. Entre os cuidados que a empresa prioriza, está a manutenção de maquinários e veículos, acompanhamento e direcionamento da fauna durante supressão da vegetação, disposição adequada de resíduos e materiais e ações de fiscalização e proteção da fauna e área de manguezal próxima ao empreendimento, além de ações de educação ambiental em locais específicos.
Depois de concluído, o terminal vai operar em área total de 490 mil metros quadrados, terá 1.108 metros de cais acostável e deverá entrar em operação no primeiro trimestre de 2013, prevendo-se a movimentação de 1,2 milhão de contêineres (Teus) e de 1,4 milhão de toneladas de granéis líquidos.
O investimento total é de 1,008 bilhão de dólares, cerca de R$ 1,8 bilhão. Na fase de construção, a obra emprega aproximadamente 3 mil trabalhadores e, na fase de operação vai oferecer cerca de 1.500 empregos diretos e 9 mil indiretos, com prioridade para a mão de obra da região.
Preservação
Além da descontaminação do solo, a empresa mantém a preocupação de preservação e monitoramento de espécies da fauna e da flora, por meio do Programa de Controle e Monitoramento das Condições do Meio Biótico. Já foram registradas 75 espécies de aves terrestres e 43 espécies de aves aquáticas, dentre estas, destaca-se o gavião-asa-de-telha, que possui monitoramento específico. Também é feito monitoramento aquático, acompanhando tartarugas marinhas da espécie tartaruga verde, peixes e fauna acompanhante, onde as três espécies de maior ocorrência são a carapeba, parati e carapau. Vários tipos de crustáceos e moluscos, entre outros invertebrados, além dos organismos microscópicos (fitoplâncton, zooplâncton e ictioplâncton) e de cetáceos.
Para a flora, é feito o monitoramento periódico para avaliação do desenvolvimento ou detecção de qualquer alteração no manguezal preservado na área da BTP, com aproximadamente 30 mil m², às margens do Rio Saboó, onde são observadas espécies típicas de manguezal. Anteriormente à supressão de vegetação para a limpeza do solo e implantação do terminal, foram resgatados vários tipos de plantas epífitas, que são aquelas que crescem sobre troncos e galhos, e não possuem interação com o solo, como bromélias, samambaias, etc. Estas plantas foram acondicionadas no viveiro de mudas localizado na área da BTP para, posteriormente, voltarem para a área vegetada da empresa. A coordenadora de meio ambiente da BTP, Elizabete Ramos, explica que a empresa realizou revegetação com o plantio de 546 mudas de espécies típicas de manguezal: Rhizophora mangle, Avicennia schaueriana e Laguncularia racemosa, também conhecidas como mangue-vermelho, mangue-preto e mangue-branco, respectivamente, numa área de aproximadamente 0,3ha. Estas mudas foram coletadas na própria área, antes do processo de supressão e, em campo, são monitoradas e recebem manutenção periódica.
Visitas
Desde o início da remediação da área, a BTP possui um espaço chamado Casa de Visitantes, que serve como instalação de apoio aos treinamentos previstos e ações dos programas ambientais da empresa. Esta estrutura permanecerá durante a operação do terminal, para visitas e atividades e disponibilidade de materiais, pesquisa e ações voltadas a estudantes da região e à comunidade em geral.



