Apesar de antiga, a prática desse esporte ainda não conta com muitos adeptos na Baixada Santista. Porém, seus poucos praticantes garantem que os pequenos aviões são frutos de sonhos infantis, que perduram pela vida toda.
Textos e Fotos: Flávia Souza
Filho de um piloto da Força Aérea Brasileira, o jornalista aposentado Francisco Ferraro cresceu com os olhos voltados para o céu. Admirava os aviões, e imaginava como seria se estivesse lá, ao lado do pai, no comando de uma aeronave. Seu desejo de ser aviador era tamanho que, já aos sete anos, voava. Mas com os pés no chão, pilotando aeromodelos que ele mesmo construía. A partir de então, a paixão pelo aeromodelismo só aumentou e, até hoje, dedica pelos menos dois dias da semana à prática do Voo Circular Controlado (VCC), numa área destinada exclusivamente ao esporte no Complexo Esportivo Vanderlinde, ao lado do Kartódromo Municipal de Praia Grande.
Ferraro afirma que a dedicação vai além da pista de aeromodelismo. “Quando não estou praticando o VCC, estou nas lojas especializadas, comprando peças para confeccionar ou terminar novos modelos”, diz. A paixão teve que ser aceita pela família, pois, além de tomar seu tempo livre, também ocupa cada vez mais espaço dentro de sua casa. “Tenho 22 aviões prontos dentro de casa, além de 25 motores. Em Jundiaí, onde também tenho residência, guardo outros seis e, na casa da minha mãe, abrigo quatro. Minha esposa tem ciúmes desse meu hobby. Mas, acostumou-se com isso e, hoje, até me acompanha em algumas competições”.
Aos 11 anos, Geovanni Battistini é outro exemplo da paixão pelo esporte. Suas manobras costumam impressionar até os mais antigos pilotos, tanto que levou o segundo lugar numa prova chamada Corrida Maluca, em que competiu com pilotos de todas as idades. “Minha experiência é porque estou sempre praticando, pois é maravilhoso manobrar estes aviões”.
O estudante João Leal Filho, de 13 anos, é outro aficionado pela modalidade. “Faz apenas alguns meses que pratico esse esporte, que conheci por meio do meu tio, também praticante. Conhecedor da minha paixão por aviões, me trouxe até a pista e não saí mais. A sensação que temos quando estamos pilotando é de liberdade total, sentimos o vento batendo no rosto e não pensamos em mais nada, só em voar”, diz João, que faz coleção de plasticomodelismo – miniaturas plásticas de aviões reais.
Arlete Alfaro destaca-se na pista praiagrandense também por ser a única piloto no grupo. “Há cerca de cinco anos me envolvi com o aeromodelismo, e isso aconteceu por conta do grupo de escoteiros, onde atuo como coordenadora da modalidade do ar. Hoje pratico o esporte, e o transmito aos escoteiros, que também treinam na pista de Praia Grande”, diz. Arlete já perdeu a conta de quantos aviões construiu. Orgulha-se por seu mais recente feito: a participação no Domingo Aéreo 2010, evento realizado no Parque Ambiental de Material Aeronáutico de São Paulo, em comemoração à Semana da Asa.
A arte de confeccionar

Um aeromodelo pode medir entre 85 cm e 1,20 m, e pesar até 1 quilo; já o motor de 0.60 cc (cilindros cúbicos) mede 14,5 cm. A construção de um avião deste porte pode durar até quatro meses e são necessários cerca de R$ 200,00 de investimento em peças para a sua fabricação caseira.
Além de gostar de todo o processo que envolve o esporte (da confecção à pratica), Ferraro sente satisfação em transmitir seus conhecimentos sobre o assunto. “Gosto muito de ensinar aeromodelismo. Tanto que, anualmente, acampo por dois dias com os Escoteiros do Ar, onde dou aulas sobre a aerodinâmica dos aeromodelos, ensino a construir um avião com caixa de madeira, dessas simples usadas para acondicionar frutas, e instruo sobre como voar. As atividades sempre se encerram com uma competição chamada prova do caixote, na qual colocamos no ar, os aeromodelos construídos pelos escoteiros”.
Acrobacias e velocidade
Promovidas pela Confederação Brasileira de Aeromodelismo, as competições da modalidade acontecem anualmente em várias cidades do país. Nessas provas, levam os troféus os melhores em acrobacias e velocidade.
Já o Clube de Aeromodelismo de Santana, na Capital, é o principal responsável pela Prova do Caixote, em que o competidor tem seis horas para montar seu avião com caixas de frutas e verduras e colocá-lo para voar. Vence o avião mais bonito e o que ficar mais tempo no ar.
Apesar de hoje ser usada apenas para a prática de aeromodelismo, a área de 2.570m2 no complexo esportivo no bairro Tude Bastos, em Praia Grande, não é oficialmente uma pista de voo. A boa notícia para os adeptos da modalidade é que a prefeitura local planeja implantar o equipamento com medidas oficiais para a prática de VCC, conforme afirma o secretário municipal de Juventude, Esportes e Lazer (Sejel), José Carlos de Souza. “O projeto está pronto e deverá ser implantado no ano que vem. Nosso objetivo é beneficiar não só nossos moradores, como frequentadores das demais cidades da Baixada Santista e, até, do interior de São Paulo”
Aeromodelismo no Brasil
Sem dados históricos precisos, sabe-se que, em 1936, uma loja situada na Rua Direita, em São Paulo, a Casa Sloper, vendia material de aeromodelismo. Desde 1941, a firma Almeida & Veiga importava kits de modelos americanos.
Em 19 de julho de 1942, foi realizado o I Campeonato Paulista de Aeromodelismo, no Campo de Marte. Em 1959 ocorreu o I Campeonato Brasileiro de Aeromodelismo, e a participação de brasileiros no I Campeonato Sul-Americano, tendo como vencedor nas categorias planadores A2 e motor FAI, Paulo Marques.
Em 1987, o aeromodelismo foi reconhecido como esporte no Brasil. Em 1996, a delegação brasileira de aeromodelismo Voo Circular Controlado consegue o 6º lugar no Campeonato Mundial da Suécia, e novamente em 1998, dessa vez na Ucrânia.

