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Pescador artesanal. Espécie em extinção?

Pescador artesanal. Espécie em extinção?

Ainda está escuro e frio na praia de Boiçucanga, na costa sul de São Sebastião, quando Autamir de Matos, o Jururuca, 38 anos, prepara-se para mais um dia de trabalho duro. Por volta das 6 horas, em pleno domingo – dia de descanso para a maioria das pessoas, mas não para quem vive exclusivamente da pesca artesanal – Jururuca já está em seu pequeno barco. O destino? Puxar sua rede de seis metros, estrategicamente fundeada a seis quilômetros da costa, próximo a uma das ilhotas da região.

Texto e fotos: Helton Romano

Durante o percurso, ainda bocejando, Jururuca parece contemplar a natureza enquanto o Sol nasce por detrás do morro. “Por mais que eu esteja acostumado com essa paisagem, é impossível não admirar”, diz.

Meia hora depois o barco chega ao local. É o momento de colher sua única fonte de renda. Com muito esforço, ele inicia o trabalho de puxar a pesada rede para dentro do barco, e logo aparece o primeiro peixe: um bagre de aproximadamente 7 k. Animado, confia em que este seja um dia de boa pescaria. Mas o restante da rede traz apenas caranguejos e siris, que são desenroscados e devolvidos ao mar.

O bagre, portanto, é o único fruto do trabalho daquele dia. O pescador, porém, não se deixa abater. “Hoje foi ruim, mas é assim mesmo. Amanhã será melhor”, diz, com a esperança e sabedoria de quem está no ramo desde os 12 anos de idade.

Entretanto, a escassez do pescado e a dificuldade em comercializá-lo, entre outros fatores, fizeram com que muitos companheiros de Jururuca abandonassem a pesca. Hoje, nas praias da costa sul de São Sebastião, é cada vez mais raro

Pescadores preparam suas redes em Barra do Una. Jururuca(acima) com o bagre de 7 quilos

encontrar quem exerça a atividade como único meio de subsistência. “O pescador artesanal é uma espécie em extinção”, acredita Valdimir de Oliveira, o Mímico, que viveu da pesca durante 11 anos. “Depois que tive meu filho, o dinheiro começou a faltar. Passei a sair para o mar mesmo em condições ruins, colocando em risco a minha segurança por necessidade. Ao final do mês, o máximo que conseguia ganhar com a pesca eram 500 reais”.

Novos rumos

A vida do pescador mudou quando foi trabalhar como marinheiro particular em um iate clube, na praia de Barra do Una. Para fazer a manutenção e pilotar uma lancha de 35 pés, Mímico recebe um salário de R$ 1.750,00, com reajuste anual.

Esse foi o rumo seguido por diversos pescadores do local, que aproveitaram a expansão do turismo náutico na região para aposentar as redes de pesca. Somente no iate clube onde Mímico trabalha, há outros 10 marinheiros que migraram da pesca artesanal, levando consigo os conhecimentos de navegação, tempo e mar.

É o que deseja também o pescador Luiz Carlos dos Passos Filho, de 38 anos. “Para viver só da pesca, não dá mais. Estou há 5 anos tentando fazer a laje da minha casa, mas o dinheiro não entra”, lamenta. “Antigamente era uma fartura de peixe. Hoje, a gente tem que ir buscar mais longe, gastar mais combustível, e pegar menos peixe”.

Além da dificuldade na captura, falta comprador. “Há 3 meses estou com peixe no freezer”, afirma Erick Teixeira de Oliveira, que consegue tirar de R$ 700,00 a R$ 800,00 para sustentar a mulher e os três filhos. Ele se queixa também das restrições à pesca e do rigor da fiscalização. Mas, apesar dos problemas, é um dos poucos que não pensa em mudar de atividade. “Minha mulher briga comigo para sair da pesca, mas é a minha paixão. Nasci na pesca e vou morrer na pesca”.

Efeitos do desenvolvimento

É cada vez mais raro encontrar quem exerça a atividade de pescador artesanal como único meio de subsistência

A pesca artesanal é uma das características marcantes da cultura caiçara. Durante décadas, o caiçara tirou do mar o seu sustento. Ao longo dos anos, essa cultura foi transmitida de geração para geração.

Mas, o desenvolvimento urbano, impulsionado pela construção da Rodovia Rio-Santos no início da década de 1980, alterou o modo de vida dos caiçaras. Se, antes, eles se dedicavam exclusivamente à pesca, com a urbanização passaram a realizar, paralelamente, atividades vinculadas ao turismo, comércio e setor público.

“A gente não tinha outra opção de renda, por isso ficávamos na pesca. Mas agora as novas gerações não querem mais pescar”, diz Pedro Fernandes Filho, 72 anos, pescador aposentado da praia de Toque-Toque Grande. “Aqui, muitos largaram a pesca e viraram caseiros. Não pagam luz, água…”, comenta.

Seus dois filhos seguiram no mesmo ramo, sendo que um deles, Antonio Sérgio Fernandes, comanda o departamento de Pesca da prefeitura de São Sebastião. “A gente percebe uma falta de interesse do pescador em se organizar para reivindicar melhorias”, diz. Ele admite a redução no número de pescadores, mas não acredita na extinção da profissão. “Sou insistente, caiçara e pescador. Acredito em tempos melhores”.

A escassez do pescado e a dificuldade em comercializá-lo, fizeram com que muitos companheiros de Altamir de Matos, o Jururuca, mudassem de atividade, como Valdimir Oliveira, agora marinheiro particular

Para não deixar a atividade morrer, Fernandes aposta em incentivos governamentais no custeio das despesas. “O pescador sai da profissão porque não vê outra saída. A partir do momento que tiver a oportunidade de viver daquilo, vai continuar pescando”. Segundo a Colônia de Pesca de São Sebastião, há 350 pescadores regularizados na cidade, deste total, apenas 25 são da costa sul.

 


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