Texto e fotos Flávia Souza
Ela acorda às 5 horas, embarca numa canoa simples, e usa as forças dos braços para vencer, a remo, os cerca de 600 metros que a separam do continente. A partir daí, segue para Vicente de Carvalho, no Guarujá, para pegar a barca que a leva a Santos, onde toma um ônibus para chegar às 7 horas no trabalho. Esta é a rotina diária da auxiliar de serviços gerais Iara Marcolino Santos da Costa, 38 anos, uma entre os 250 moradores da pitoresca Ilha Diana, mas que, curiosamente, não se encontra nos mapas da região. É a água que dita o ritmo desta comunidade formada por 53 famílias. Os pequenos barcos de pesca e as canoas a remo são meio de transporte e de sobrevivência dos moradores, aos quais se atribuem o colorido e a típica movimentação no trapiche de acesso à ilha, pertence a Santos.
Visitar a Ilha Diana é como viajar no tempo. Grande parte das casas é de madeira e os moradores buscam na pesca um meio de sobrevivência. A comunidade parece estar à parte da movimentação e do desenvolvimento contínuo que acontece em Santos, apesar de distar apenas oito quilômetros do maior porto da América Latina.
A segurança que a ilha proporciona aos moradores supera as dificuldades de uma vida afastada dos confortos oferecidos pela cidade. “Vivo aqui desde que nasci. Fiquei apenas um ano fora, vivendo em Vicente de Carvalho, mas não me adaptei à aglomeração, ao barulho, aos carros e voltei. Tenho quatro filhos, posso sair e deixar a porta encostada, porque sei que aqui eles estão protegidos”, conta Iara Marcolino.
Sua filha Letícia Santos da Costa, 18 anos, desde os 10 faz a travessia a remo entre a ilha e Vicente de Carvalho. É que a ilha conta apenas com escola de Ensino Fundamental. A partir do segundo ciclo, os estudantes têm aulas na Base Aérea de Santos. “Gosto daqui, apesar de não termos opções de diversão. Então, quando quero sair e voltar mais tarde, saio remando com minhas amigas”, diz Letícia.
A tranquilidade e o sossego são mesmo os principais atributos locais. “Aqui é um lugar seguro, onde a comunidade se ajuda. Todos fazem tudo”, afirma a mais antiga moradora, Antônia Bittencourt de Souza. Com seus 94 anos de vida, dona Dina – como é conhecida – é um protótipo da típica hospitalidade do povo da ilha.
Ao lado da filha mais velha Celina Aires, ela lembra a época áurea do pescado na Ilha. “Meu marido trabalhava em escritório, até que pediu demissão para trabalhar por conta própria – comprando e revendendo o pescado por aí. Assim ganhamos muito dinheiro. Mas nós também pegávamos marisco, no tempo em que ainda tirávamos com o dedo. Num único dia, cheguei a encher cinco latas grandes do molusco”.
Mas, hoje, a Ilha dos Pescadores, como era conhecida, não consegue mais sobreviver apenas da pesca e isso preocupa a população local. “A pesca está enfraquecendo a cada ano e isso nos aflige. A pescaria não dá mais futuro. Quem insiste nesse meio de vida, vai pescar em Bertioga ou no Casqueiro, porque aqui não dá mais”, afirma o pescador Astor Marcolino dos Santos.
Área de preservação
Em seu quintal, dona Dina cultiva uma variedade de espécies de plantas e afirma tratar alguns problemas de saúde com chás de ervas que colhe nas imediações de seu chalé. “Dentre as muitas ervas que tenho aqui, uma das mais utilizadas é a ulmária (rainha-dos-prados, cujos princípios ativos servem de base para a aspirina). Também tenho o patchouli, e sempre lavo minhas roupas com essa planta, que deixa um perfume bem gostoso”, diz sorrindo.
Os moradores da ilha são os guardiões da natureza da Ilha Diana, inclusa como Zona de Preservação, na Lei de Uso e Ocupação do Solo na Área Continental, de 25 de novembro de 1999, que tem como diretriz a proteção dos ecossistemas, os recursos genéticos e as populações tradicionais. O texto diz que o ambiente natural deve servir à pesquisa, educação, uso tecnológico e científico. Dentre os usos permitidos no local estão atividades educacionais e de turismo monitorado, o manejo auto-sustentado, a aquicultura e a maricultura.
A fauna e a flora locais constituem-se de espécies típicas de manguezais. Na vegetação, podemos observar o mangue branco e o mangue vermelho, e no caso dos animais, várias espécies de siris, caranguejos e peixes, entre os quais robalo, tainha, mero, caratinga e parati. Há camarões, ostras e mariscos, e aves de diversas espécies, como garças, guarás, socós, saracuras e colheiros. Entre os mamíferos, destaques para o mão-pelada (também conhecido como cachorro-do-mato) e a lontra, comuns na ilha.
A vegetação é composta por palmeiras, chapéus-de-sol e muitas espécies frutíferas como jambolão, goiaba, araçá, laranja, limão, banana, pitanga, abacate e manga. A cana-de-açúcar e batata doce também estão presentes no local.
História
A ocupação da Ilha Diana aconteceu na década de 1930, quando a Base Aérea de Santos foi ampliada para a construção da pista de pouso. Com isso, uma parte da população de Vicente de Carvalho, que vivia nos bairros Bocaina e Saco do Embira, foi desalojada. Tendo que procurar novas áreas para viver, quatro dessas famílias se estabeleceram na ilha. Dona Dina foi uma das primeiras a habitar o local: “Com a desocupação da área da Base Aérea, algumas famílias embolsaram um valor pelas suas casas e outras receberam apenas tábuas para construir um novo lar em outro lugar”.
A ocupação se deu de maneira linear ao longo da orla da maré e o posicionamento das residências forma nitidamente pequenos núcleos, evidenciando as ligações familiares entre moradores. Muitas dessas casas ainda são construções de madeira, com telhas de barro, e se encontram suspensas do chão, apoiadas sobre pilares para se protegerem da invasão da maré.
Entretenimento
Futebol é mesmo a paixão dos brasileiros. E na Ilha Diana também é um dos principais meios de reunião e entretenimento. Quando tem jogo no campo da ilha contra time de fora, há sempre churrasco e bebida, e a comunidade comparece em peso.
A maior celebração, no entanto, acontece no início de agosto, quando se realiza a festa de Bom Jesus. Além da missa e procissão marítima, os festejos – que já receberam até seis mil pessoas num único final de semana, segundo conta Evaldo Domingos Lima, presidente da Sociedade de Melhoramentos Amigos da Ilha Diana – são comemorados com muita tainha assada na grelha e festival de frutos do mar. Um bom motivo para visitar a ilha. Está feito o convite!
Serviço: o atracadouro de acesso à ilha fica no lado direito do Terminal da República das barcas, do sistema hidroviário que liga Santos a Vicente de Carvalho. A taxa é de R$ 0,25. Para passeios com monitoramento local e ambiental, entrar em contato com Elisa pelos telefones (13) 8816 2885 e (13) 7808 5336.


