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Memória afetiva

Memória afetiva

Por Eleni Nogueira

Fotos Pedro Rezende

Manhã de 19 de agosto. O dia está ensolarado, mas uma névoa insistente teima em empalidecer a bela paisagem contornada por montanhas. Nossa equipe chega à bucólica Vila de Itatinga, onde o silêncio é reinante. Olho para as solitárias casinhas amarelas e verdes dispostas ao longo da via férrea, a caprichosa igreja que enfeita um platô acima das casas e, um pouco mais à frente, a imponente casa de força da Usina Hidrelétrica de Itatinga. Depois do impacto da bela cena, o primeiro pensamento vem em forma da inevitável pergunta: como teria sido viver nesse lugar que mais parece um cenário de filme?

Capela Nossa Senhora da Conceição

A resposta está na memória de três bertioguenses apaixonados por Itatinga. São representantes de muitas pessoas que passaram parte de suas vidas nesse lugar. Mas, com um diferencial: cada um, a seu modo, deu um jeitinho de permanecer ligado a ela.

“O sino tocava às 18horas e nós, então crianças, deixávamos as bicicletas na primeira escadaria da igreja, já trazendo as flores de acácia, com seus cachos amarelos, das árvores que existiam entre o armazém e o cinema, para enfeitar o altar de Nossa Senhora; corríamos para sermos os primeiros a chegar e poder rezar um dos mistérios; muitas vezes, rezávamos correndo e afobados, para poder voltar a brincar, e acabávamos esquecendo alguma parte da Ave Maria.

 Pensa que ajudar nas tarefas diárias era fácil? Imagine encerar as tábuas de madeira de imbuía em uma única direção e, depois, dar brilho nos cantos da casa com os pés! Varrer e lavar as escadas e calçadas feitas de pedra e deixá-las brancas, além de ajudar a cuidar dos lírios amarelos e hortênsias que enfeitavam os jardins das casas. E, às dez da noite, a sirene da usina cortava o Itatinga de ponta a ponta, anunciando que todos deveriam se recolher, e que mais um dia estava chegando ao fim”.

Elaine Nehme colhe memórias para compor futuro livro sobre Itatinga

Estas são algumas das muitas lembranças de infância da funcionária pública Elaine Amorim Justo Nehme, nascida em Itatinga, e que lá viveu até os 19 anos. E ela não poderia deixar de citar o clássico festival de 7 setembro, realizado anualmente, até hoje, em homenagem ao aniversário do Itatinga Futebol Clube, ocasião em que o acesso à vila é livre, e os moradores de Bertioga “invadem” o lugar.

Elaine Nehme é parte da terceira geração de uma família que participou da história de Itatinga. Seu bisavô Agostín Ramos, segundo conta, foi quem colocou a pedra fundamental de construção da Capela Nossa Senhora da Conceição.

A forte ligação com Itatinga a motivou a dar início ao trabalho de registrar, num livro de contos, os usos, costumes e crenças das famílias que habitaram a Vila de Itatinga até meados da década de 1990, resultado de 30 entrevistas com ex-moradores. A pesquisa revelou, por exemplo, que, no período de 1910 a 1930, a vila foi habitada exclusivamente por portugueses e imigrantes italianos e espanhóis; de 1930 a 1950, iniciou-se a migração de pessoas vindas daqui mesmo da região do litoral norte, especialmente de Ubatuba e Caraguatatuba e, na década de 1990, o início do fim de um ciclo, com os últimos aposentados deixando a vila com suas famílias.

Capela Nossa Senhora da Conceição e campo do Itatinga Futebol Clube

O livro, ainda sem nome definido, será ilustrado com fotos antigas (pessoais e doadas pelas famílias entrevistadas), e atuais, do fotógrafo Du Zuppani.

Estas imagens, aliás, de paz, alegria e confraternização entre as famílias que moravam em Itatinga, são semelhantes às que estão ainda na memória do aposentado Carlos de Oliveira, que viveu 22 anos na vila. “Houve tempos difíceis, quando não existiam estradas e tudo era feito pelo rio Itapanhaú, mas era muito bom viver ali. Hoje, quem volta sente uma nostalgia muito grande. Éramos como se fossemos uma família só. Tinha muitas festas, bailes e jogos de futebol. Inesquecível”.

Para não perder sua ligação com o lugar, depois de aposentado investiu em uma nova carreira: formou-se como monitor de turismo, criou uma agência e, hoje, continua a atravessar o rio Itapanhaú sentido Itatinga, mas, dessa vez, com turistas ávidos por conhecer o lugar e ouvir suas histórias.

Sandro perpetua suas lembranças em telaPerpetuar as lembranças da infância em tela foi a forma escolhida pelo pintor Sandro Bueno Justo para mostrar a beleza da vida em Itatinga. “Quando o bonde parava na vila, todos corriam para a janela para ver quem estava chegando. Lembro também de quando as calçadas eram lavadas com escovão; ficava tudo brilhando. As festas, os bailes, a convivência entre as pessoas, era tudo muito bonito”, conta.

Sua família tem forte ligação com o lugar. O bisavô, o avô e o pai, Ademir Ramos Justo, foram funcionários da usina. O primeiro quadro do artista, aos 12 anos de idade, retratou a capela Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Itatinga. Sandro nunca mais parou de pintar a vila. “Já perdi a conta de quantos quadros pintei com esse tema. Pinto o meu passado, a minha gente”, diz.

Sandro viveu na vila até os 12 anos, depois se mudou para Santos, por problemas de saúde.

Carlos encontrou-se no turismo

 Mas, todos os finais de semana, a família voltava à vila para passear e rever parentes e amigos. Foi assim durante toda a infância e juventude. Felizmente, toda essa memória gravada poderá ser admirada na Pinacoteca de Santos, entre os dias 19 e 31 de outubro, em exposição comemorativa ao centenário de Itatinga, promovida pela Codesp.

 

Um comentário

  • Wilson Jr. twitter: @wgermanojr disse:

    Parabéns a Eliane pelo trabalho de resgatar a história de Itatinga, local de grande imortância para conteúdo histórico da baixada, imagine um livro contando a história do Brasil no trecho que refere ao estado de São Paulo?Itatinga com certeza tem seu espaço reservado.
    Parabéns Eliane.


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