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Cultura resistente

Cultura resistente

Nesta décima edição do evento indígena em território bertioguense, a ser realizado de 21 a 23 de abril, participarão cinco etnias: Guarani (Bertioga), Xavante e Kamayurá (Mato Grosso), Terena (Mato Grosso do Sul) e Karajá (Tocantins). Cada delegação estará representada por 40 membros, entre caciques, líderes espirituais, membros e interlocutores biculturais, com exceção dos guaranis que, por habitarem regiões mais próximas do município, participarão com 80 integrantes.

Por Flávia Souza

As funções de homens e mulheres na organização das sociedades indígenas têm diferenças marcantes

Os guaranis integram uma população de quase 1500 pessoas que vivem no litoral de São Paulo e Vale do Ribeira, de Ubatuba à Cananéia. Apesar de viverem próximos aos centros urbanos, eles continuam

sendo guerreiros, como o próprio nome significa. Eles formam núcleos que habitam terrenos próximos à mata, ao mar e ao asfalto, mas, mesmo assim, resistem à aculturação. Preservam sua cultura por meio de práticas e rituais diários, a exemplo da casa de reza – o local mais sagrado de uma aldeia.

Mas os índios da região já não vivem mais a vida de seus antepassados, sustentada pela caça, pesca e produtos tirados da mata; até mantêm as práticas, mas subsistem mesmo de alimentos comprados no comércio.

Alcides Mariano Gomes, o cacique Karai da aldeia Nhandewa Mbya, em São Vicente, explica melhor: “Vivemos muito próximos à cidade, assim temos um contato intenso com a cultura não-indígena. Isso nos obriga a aprender a conviver com esses dois mundos, pois não há como nos afastarmos”.

Instalada a poucos quilômetros do centro da cidade, a aldeia conserva aspectos da antiga mata virgem, pelo menos na questão da tranquilidade absoluta. Da área principal da aldeia, onde está instalada a opy (casa de reza), pode-se apreciar as belas vistas do morro do Japuí, de um lado, e a Praia de Paranapuã, também conhecida como Praia das Vacas, de outro, fronteiriça à badalada Ilha Porchat – um contraste bem típico do nosso litoral. Tal proximidade com a cidade favoreceu o bilinguismo entre os indígenas, cuja maioria, hoje, fala fluentemente o português, idioma ensinado às crianças (as kyringués, em guarani) a partir dos sete anos de idade.

Rituais

A prática diária de rituais, realizada na casa de reza, tem papel fundamental na construção e estrutura do jovem índio. Diz o cacique: “Todos os dias nos encontramos na opy para cantarmos, dançarmos e rezarmos a Nhanderu (Deus). Nessas ocasiões, os mais velhos transmitem às crianças o nosso conhecimento ancestral. Eles também aprendem a fazer cestas, zarabatanas, leques e colares de sementes e conchinhas do mar. Tudo para que os pequeninos tenham o maior acesso possível a nossa cultura”.

Os guaranis realizam rituais tradicionais, como o Xondaro e o Tangará – danças feitas na casa de reza. Dentro ou fora da opy, dependendo da ocasião, essas práticas têm entre as suas várias funções a intenção de alegrar e divertir toda a comunidade. Violão, tambores, rabeca (tipo de violino) e chocalho são alguns dos instrumentos musicais usados.

Segundo o agente de saúde da aldeia de São Vicente, Dida Fernandes, batizado em guarani como Karai Jexata (raio de sol), as músicas cantadas – mais parecem rezas – são entoadas em guarani e falam da natureza, da busca pela terra sem mal e do fortalecimento espiritual. Os cantos costumam ser recebidos em sonhos pelas crianças e pajés. “Nesses momentos damos as mãos para lembrar que, unidos, somos fortes, e para agradecer por mais um dia que se vai e por mais um dia que vem”.

Danças e lutas

O Xondaro é uma prática masculina, que lembra uma técnica de luta, com ênfase no equilíbrio, e gestos baseados nos movimentos dos animais. Sua atitude principal é a do desvio – onde o guerreiro aprende a não se contrapor ao oponente, deixando que ele gaste a sua energia. Assim como a capoeira, a arte exerce a função de luta ou de dança, conforme as circunstâncias.

No caso dos guaranis, a ação também incorpora o papel de canto. Com isso, ela ainda se torna útil no que se refere ao aprimoramento dos sentidos, da agilidade e do senso de direção – itens extremamente necessários para a vida na mata. O Xondaro ainda tem o significado de guardar a aldeia, para manter a saúde e o equilíbrio da comunidade.

Já o Tangará é a dança feminina. Nela, mulheres de todas as idades imitam os pulinhos do pássaro de mesmo nome. A dança lembra os tempos passados e serve também para agradecer a natureza. As mulheres batem o takuapu, ou o bastão de taquara, para chamar a força espiritual. Força esta que só pode ser vista, de acordo com os guaranis, por meio da fumaça que sai dos petynguás, os cachimbos de fumo de corda, instrumentos sagrados que são usados em todos os rituais para fazer contato com o divino. Eles acreditam que a fumaça que sai deles leva os pensamentos até Nhanderu. A fumaça produzida pelo fumo, quando misturada com algumas ervas, é usada em outro ritual importante: o batismo. Momento solene em que os índios ganham o nome e a alma guaranis.

Batizado

Consideradas pela sociedade indígena como veículos de poder e transformação, as crianças guaranis têm uma grande autonomia. “Isso porque elas representam a sabedoria e a vontade dos deuses. Então ela é bem tratada, respeitada e reconhecida na comunidade, tendo liberdade para pensar, agir e fazer”, explica Cristiano Hutter, coordenador técnico da Funai, responsável pelas aldeias do litoral sul.

O pajé Maurício de Souza, o Karai Mirim da aldeia Tekue Mirim, em Praia Grande – a mais nova das comunidades do litoral paulista, criada há cerca de quatro meses, complementa: “Ter filhos significa que Nhanderu continua disposto a manter relações com os seres desse mundo, fortalecendo a aldeia. É por meio das crianças que temos certeza de que não vamos acabar”.

Quando elas nascem, recebem um nome em português, até que Nhanderu dê o nome guarani ao bebê com seis meses de vida. “É assim porque até essa idade o espírito ainda não está no kyringué”, explica o agente de saúde da aldeia de São Vicente, Dida Fernandes.

Educação

O professor indígena Sérgio Martins, ou Popyguá, leciona na opy de São Vicente para cerca de 20 crianças com idades variadas. É uma escola indígena bilíngue, que segue currículo diferenciado das escolas urbanas. Sergio diz: “A Lei de Diretrizes e Base (LDB) da Educação garante aos povos indígenas o próprio jeito de ensinar as crianças. Então ensino as disciplinas normais para os alunos e, para isso, recebo o material de apoio do governo do estado e as crianças ganham kit escolar. Porém, transmito também costumes e língua guaranis”.

O professor é formado em magistério indígena pela USP e, aos 27 anos, já conquistou outros diplomas, como o de graduação no curso superior de educação indígena e o de pós-graduação em educação ambiental. Ele criou um blog em que fala da educação indígena e apresenta projetos realizados (www.guaraniuruity.wordpress.com).

A criação de escolas indígenas é bem recente, então há grandes desafios pela frente. “Os maiores são a falta de professores e a construção de prédio escolar em várias aldeias”, afirma Amaury Vieira, coordenador regional da Funai no litoral sudeste, responsável pelas terras indígenas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Algumas comunidades da região possuem prédio escolar próprio, com mais de um professor, salas de aula e cozinha. Em Peruíbe, as aldeias tupis Piaçaguera e Nhamandu Mirim estão entre as mais estruturadas quando o assunto é educação.

Artesanato

A maior parte da renda indígena deriva da comercialização do artesanato, vendido nas calçadas e feiras das cidades. São peças que, costumeiramente, utilizam na própria comunidade, como cestas, esteiras, colares, cocares, arcos e flechas. A arte da cestaria é feita por meio de trançados com taquara de bambu e desenhada com cipó imbé ou ximbopeva (que dão a cor preta).

Apresentação culturais

Para melhorar a renda, os povos indígenas fazem apresentações culturais dentro ou fora da aldeia; em troca recebem dinheiro e/ou alimento. Na aldeia Nhamandu Mirim, em Peruíbe, a construção da Casa de Cultura tem sido um dos pontos altos do dia a dia da comunidade. A obra tem tomado o tempo dos índios e é vista como a menina dos olhos do grupo. “Com frequência, recebemos turistas para assistirem a apresentações de canto, dança, teatro, além de fazerem trilhas pelas mata”, diz o cacique da aldeia Nhamandú Mirim, em Peruíbe, Domingos da Silva, ou Ava Tataendy. A aldeia já tem seu espaço na internet, pelo endereço www.aldeianhamandumirim.blogspot.com.

São Vicente também deu um grande presente à sociedade indígena, inaugurando no último dia 18 de março o Espaço Cultural Guarani, localizado ao lado da Ponte Pênsil, no Píer de Pesca, onde se difunde a cultura da etnia,

além de venda de artesanato. O local é aberto ao público e está disponível diariamente para a realização de oficinas, visitações de escolas e outros grupos que tenham o interesse em conhecer a cultura de povos indígenas. As visitações em grupo devem ser agendadas antecipadamente no próprio espaço, informa o secretário de Cultura de São Vicente Renato Caruso.

Festival indigena

A abertura oficial do Festival Nacional da Cultural Indígena 2011, que contará com a presença de 240 indígenas, acontecerá na quinta-feira 21, às 20 horas, na arena localizada na Praça de Eventos, em frente ao Parque dos Tupiniquins, na Praia da Enseada (Centro). A cantora e artista intercultural Marlui Miranda interpretará, na ocasião, o Hino Nacional, em idioma guarani.

Em paralelo às atividades de demonstrações das culturas étnicas, haverá a tradicional feira de artesanato indígena, demonstrações da culinária típica, atividades esportivas, ciclo de palestras, além de um seminário, cujo tema principal é “A Água”. No dia 21, Samira Marcos Tsibosawapré abordará a Identidade Cultural; a seguir, Daniel Monteiro enfocará a História do Índio no Brasil. Neste mesmo dia, Carlos Terena fará sua palestra sobre a Olimpíada Verde; Tainara Ferreira da Silva e Graziela Sant´Ana, enfocarão a História do Índio no Brasil. Já no dia 22, Marcos Terena falará sobre a Espiritualidade e Meio Ambiente

A novidade dessa edição fica por conta de um telão que será instalado na praça, e que transmitirá as atividades culturais e esportivas indígenas no período noturno desenvolvidas na arena, com arquibancada capacitada para comportar cerca de cinco mil pessoas.

Outras etnias participantes

Karajá

Originário da Ilha do Bananal, no Parque Indígena do Araguaia, em Tocantins, o grupo tem origem linguística Macro-Jê e possui íntima relação com o Rio Araguaia, fonte de sua subsistência preferencial. O contato com a população branca aumentou no decorrer dos séculos XVI e XVII, com a exploração do ouro e a expansão pecuária na região. Essa população indígena guarda grandes tradições culturais, como a Festa do Aruanã, em homenagem ao peixe da região, que acreditam proteger a todos os karajás. Como preservação da cultura ainda praticam a luta corporal Idjassú. São hábeis na confecção de cestas e cerâmicas.

 

 

Terena

Do tronco linguístico aruak, são encontrados em Mato Grosso e São Paulo. Sua população é estimada em cerca de 19 mil pessoas e a maior parte vive em território descontínuo em pequenas “ilhas”, cercadas de fazendas, e distribuídas em 7 municípios de Mato Grosso do Sul: Miranda, Anastácio, Dois Irmãos do Buriti, Sidrilandia, Noaque, Rochedo e Aquidauana. Há também a terra indígena Kadiwen, em Porto Murtinho, Dourados e em São Paulo. O mito da origem desse povo é o herói civilizador duplo (tem uma parte gêmea que age como anti-herói) chamado Yurikoyuvakaí, que os tirou de debaixo da terra e ensinou-lhes o uso do fogo e das ferramentas agrícolas.

Kamayurá

Os kamayurás são uma das quatorze etnias indígenas no Parque Nacional do Xingu, no estado do Mato Grosso. Vivem entre os rios Kuluene e Kiliseu, no Alto do Xingu, município de Canarana, e falam a língua kamaiurá, do tronco linguístico tupi-guarani. A etnia sempre se manteve na mesma região, próxima a “água grande”, significado de Ipavu, nome dado a lagoa perto da aldeia.

Xavante

O povo Xavante vive em seis reservas demarcadas no leste de Mato Grosso e fala a língua do tronco linguístico Macro-Jê. Ao todo, são cerca de sete mil pessoas que mantêm uma organização social e cultural ainda preservada com danças, cantos, pinturas corporais e cerimônias coletivas como o Daporedzapu (furação de orelhas). É uma população fisicamente forte que se destaca pelo esporte tradicional, o Uiwede Wapraba (corrida de tora de buriti), que pesa cerca de 100 quilos. Também são bons jogadores do tradicional futebol.

 


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