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A cultura pela paz!

A cultura pela paz!

Por Eleni Nogueira

Desde que o mundo é mundo, bom, pelo menos, a partir dos registros históricos deixados pelos humanos que aqui habitaram antes de nós, a música, a dança, o teatro e as artes em geral, constituíram-se em linguagens universais. Prova disso é que, bastaram poucos segundos para que a plateia se envolvesse com o ritmo, a cadência das músicas e dos movimentos graciosos dos bailarinos peruanos, integrantes do grupo Imagines Del Peru, de Arequipa, sul do país.

Atuação digna de aplausos que, aliás, não faltaram em Bertioga, entre 3 e 7 deste mês, durante o “Bertioga é Bem Brasil”, etapa que contemplou a cidade durante o XXIII Circuito Brasil Fest In Folk, realizado pela Abrasoffa – Associação Brasileira de Organizadores de Festivais de Folclore e Artes Populares, com apresentações também em São Bernardo do Campo, em São Paulo, e Rio Grande do Sul.

Coreografia da dança Turkuy representa os movimentos do pássaro Condor e é apresentada em datas cívicas

A entidade santista Abrasoffa é, sem dúvida alguma, referência no assunto. São 23 anos de intensa atuação na área por meio de realização de festivais anuais no Brasil, intercâmbio de grupos artísticos e manutenção permanente de projetos voltados à formação de voluntários e geração de renda por intermédio da arte, em sua sede, em Santos.

Numa prova de que as diretrizes da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), da cultura de paz pela não violência, seguidas pela Abrasoffa, realmente funcionam.

Ritmo peruano

Em sua segunda vinda ao Brasil, a primeira foi em 2004, o grupo Imagines Del Peru, mostrou, durante suas apresentações na cidade, alguns aspectos da história da cultura Inca, de personagens místicos e a beleza da fauna e flora de seu país, por meio da dança.

Foram sete coreografias divididas por três regiões. Carlo Lujan, diretor do grupo, explica que a primeira apresentação, a Witite, da região do Vale de Colca, em Chivay, mostra o colorido da fauna e da flora locais, no rico bordado feito a mão dos trajes femininos, além da riqueza do povo inca, representada nos turbantes dos bailarinos.

A segunda apresentação, a Turkuy, traz coreografias que imitam os movimentos do pássaro Condor, que vive nas partes altas da cidade de Cuscu. O pássaro, vermelho e branco, emprestou suas cores à bandeira do país. “Trata-se de uma dança importante e é apresentada para autoridades”, destaca Carlo.

O terceiro bloco é destinado à região amazônica peruana. São três coreografias com trajes indígenas e cada dança representa um animal da floresta: a Tamgaiana (formiga gigante); o Cucacuro (roedor) e a Anaconda (cobra).

Sempre em frente

Coreografia representativa da Amazônia peruana

Aqui no Brasil, onde a arte nem sempre merece um lugar de destaque, é curioso observar que uma entidade, voltada exclusivamente a essa área, tenha sobrevivido por tantos anos. Então, qual é o segredo da Abrasoffa? Quem responde é a fundadora e atual presidente de honra Helena Lourenço: “Somos todos voluntários e contamos com apoio da sociedade local”. Simples assim.

Atualmente, a entidade conta com 68 membros, entre alunos, diretores, professores e psicólogos. Além das oficinas de arte, promove a capacitação profissional de jovens na arte de bem servir. São os amarelinhos. Um grupo de voluntários treinados durante 8 meses, com curso de primeiros-socorros, dinâmicas de grupos, teste de línguas, receptivo, palestras educativas, simulação de situações dentro do evento, cerimonial, palco, etc.

Estas pessoas integram duas equipes: uma interna (trabalha 24 horas no alojamento, acompanhando os grupos), e outra externa (ajuda na organização de eventos fora do alojamento). Cada integrante tem sua função. “Quando trazemos os grupos internacionais para o Brasil, o nosso pessoal faz todo o acompanhamento, desde o aeroporto, durante a estada e apresentações, até o retorno do grupo, e precisam estar preparados para tudo. É um aprendizado para a vida”, diz Helena, garantindo que mesmo que uma pessoa não tenha nenhum conhecimento em línguas, em um ano já aprende um idioma.

Bom exemplo é o jovem Herbert Lima, 23 anos, voluntário desde os 17, e desde abril último, presidente da entidade. Os três idiomas que domina (espanhol, inglês e alemão), aprendeu na Abrasoffa. Herbert demonstra um carinho especial pela entidade. “Este trabalho já é parte da minha vida. Sinto-me muito bem fazendo isso. A aproximação entre os povos é muito importante. A cultura nos ensina a ter tolerância e respeito. Isto é paz”.

E não é só de força jovem que é movida a Abrasoffa. Therezinha Rei Pertu, 86 anos, tradutora oficial da entidade (fala quatro idiomas), está na associação há 13 anos e é uma entusiasta da causa pela paz. “Faço de mim uma entrega total para conseguir esse intento”, diz. E brinca com o afastamento inicial que, segundo ela, existe por parte dos jovens com pessoas de sua idade. “Quando eles sabem que vão ficar comigo se retraem, mas depois descobrem que tenho a mesma energia, alegria e que consigo acompanhá-los muito bem! Ai muda tudo. É muito bom fazer parte deste trabalho”.

De olho em Bertioga

Coreografia representativa da Amazônia peruana

Realizar o festival em Bertioga, ano que vem, em parceria com a prefeitura e entidades locais, está entre as aspirações de Helena Lourenço. A ideia é realizar uma programação de uma semana e trazer de quatro a cinco grupos internacionais, cerca de 200 pessoas. “Vamos negociar com as autoridades locais e ver a possibilidade desse projeto dar certo. Este ano, fomos recebidos com muito carinho por todos aqui”.

O prefeito Mauro Orlandini, por sua vez, já deu sinal verde para a iniciativa e pensa mais: em tornar o evento fixo na cidade. “Estamos estreitando as idéias e vendo os detalhes para que as coisas sejam bem feitas, de modo a se tornarem permanentes na cidade. O intercâmbio cultural e a cultura da paz, proposta pela Unesco é muito importante”, adiantou.

Para receber os grupos internacionais, as cidades precisam garantir o suporte de transporte a partir do aeroporto, até os locais de apresentação, alimentação e hospedagem. A Abrasoffa, por meio de seus voluntários, organiza as apresentações e faz todo o acompanhamento aos integrantes dos grupos.

Caso a proposta do festival em Bertioga se concretize, Helena adianta que irá montar uma base na cidade para a formação de jovens voluntários, com aulas de idiomas, bem servir e receptivo. “É uma oportunidade excelente para os jovens”, diz. E Herbert Lima já adianta o convite: “Participem, porque é uma experiência inacreditável! Para quem tem vontade de conhecer o mundo, é um bom caminho”, resume.

A Abrosoffa mantém intercâmbio cultural com 187 países e representa órgãos internacionais como a IOU (Organização Internacional de Artes Populares), com sede na Áustria, e o CIOFF (Conselho Internacional de Organizadores de Folclore), com sede na França.

O evento “Bertioga é Bem Brasil” contou com a participação de variados segmentos da cidade: a Associação dos Empresários de Hotéis e Turismo de Bertioga (Aehturb), Lions Clube de Bertioga, Colônia de Pescadores Z-23, Sesc-Bertioga, Sobloco Construtora S/A, Shopping Riviera, Restaurante Vista Linda, Associação Civil Cidadania Brasil, Planeta Educação e R&W Serviços Técnicos de Topografia.

Serviço: a sede da Abrasoffa fica na Rua Conselheiro Rodrigues Alves, 476, Santos. Tel.: 3222 5772. Informações adicionais no site www.abrasoffa.org.br.

 

2 comments

  • Maria del carmen disse:

    el grupo imagenes es muy bueno…la danza del peru es hermosa y ese grupo tiene un gran nivel artistico, vuelvan a invitarlos a brasil!!

  • Wilson Jr. twitter: @wgermanojr disse:

    Boa idéia do Prefeito Mauro Orlandini em tornar o evento fixo no calendário da cidade, vai trazer turistas de várias cidades, movimentando a economia local, hotéis, pousadas, restauntes, bares, imobiliárias que trabalham com locação, bares, lojas em geral, sendo uma semana pode ocorrer, pois será nos moldes de outros grandes eventos, exemplo o flip de Paraty onde diversas pessoas vão para ver uma festa literária e permanecem gastando e consumindo na cidade.


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