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  Turismo
 Bem-vindo ao reino do sossego

Para enxergar a beleza da vida simples dos moradores das 17 comunidades tradicionais de Ilhabela, é preciso buscar novos ângulos com o olhar. A sutileza do momento presente pode passar despercebida por aqueles que procuram somente uma praia virgem para desfrutar. Esquecem-se de que a maior riqueza desses paraísos não é apenas a exuberante natureza, mas o casamento perfeito entre ela e os moradores locais

Texto e fotos Bruna Vieira

"Às cinco da manhã já tô de pé. Às seis da tarde o dia acaba. O mar cansa. Agora o mar tá pras lula. É um jogo. Um dia pega peixe, outro dia o mar tá grosso e não vem nada. Mas aqui é bom pra vivê. Tem vento e chuva. Nos dias bom, deito na varanda e amanheço noutro dia".

Assim, com a malemolência de quem vive à beira-mar, o caiçara Benedito dos Santos (foto), 56 anos, nascido e criado em Serraria, Ilhabela, revela os segredos da vida simples nas comunidades tradicionais.

Nem mesmo a atividade pesqueira, que anda fraca, comparada à fartura de décadas passadas, tira a alegria de viver desse pescador de sorriso franco e expressão forte. Gestos calmos, face dourada pelas longas horas de exposição ao Sol, roupas simples, chinelo nos pés. A personificação do típico pescador caiçara.

Há muitos personagens como ele entre os 836 caiçaras das comunidades tradicionais, gente que se orgulha de ajudar a preservar 92% da mata nativa do arquipélago e a guardar um restinho de sua cultura. O modo simples de ser dessa gente é visível nas roupas, na culinária, cujos ingredientes principais são o peixe

e a banana verde, no sotaque caipira-caiçara e nas letras de músicas folclóricas. O artesanato é feito de folhas de bananeira e taboa, fibras naturais que, tecidas com cuidado, dão origem a abajures, tapetes, cortinas, vasilhas, bandejas e outros utensílios domésticos, considerados verdadeiras obras de arte.

O distanciamento em relação ao desenvolvimento urbano garante a preservação da cultura local, centrada na figura do caiçara, o nativo do litoral paulista e pescador por essência.

Comunidade de Serraria

O acesso à Praia de Serraria, onde vive uma comunidade formada por 67 pessoas, é possível por meio de trilhas em meio à Mata Atlântica ou por mar. Esta opção possibilita vislumbrar a praia ao longe, um cenário de beleza impressionante, graças ao contraste entre o mar azul-esverdeado e o verde intenso das montanhas no entorno. De barco, à esquerda de quem chega à praia, destacam-se três casinhas brancas, com portas e janelas azuis. No centro, o único estabelecimento comercial da localidade, o Kioske Serraria, divide espaço com uma igrejinha. Atrás, a pequena escola e, à direita, um rancho de pescador animado pelo colorido das canoas, boias e outros objetos pendurados nas árvores da espécie chapéu-de-sol, que unem suas sombras às dos coqueiros.

Assim que os moradores avistam a embarcação que chega, vão ao encontro dos visitantes em suas canoas artesanais, cunhadas em troncos de árvores centenárias, enormes. Os turistas são tratados como personalidades e recebem ajuda para desembarcar. Uma sensação inesquecível é pisar na areia fofa de Serraria e receber o frescor das pequenas ondas que quebram e formam uma espuma branca, que acaricia os pés.

Família típica

Benedito revela o motivo de seus sorrisos frequentes e o porque da movimentação atípica dos moradores, em incessante vaivém com paus de bambu numa das mãos e folhas de coqueiros na outra: sua segunda filha, Marilene, se casaria dali a três dias. Os familiares de ambos os noivos, todos meio aparentados, estavam atarefados com os afazeres do grande acontecimento do final de semana. O palco da festa estava sendo montado ali mesmo, e a festança, com certeza, vararia a noite. Ao lado do bolo, encomendado na cidade, assim como a cerveja, o peixe frito segundo a tradição e música de viola para animar. Detalhe: a decoração típica praiana, feita com folhas de coqueiros, e uma lona cobrindo o local, caso a chuva desse o ar da graça.

Antes da festança na orla da praia, porém, o casamento civil em Ilhabela, para aonde seguiria um comboio de cerca de 20 canoas. Benedito explicou que festança como esta, só acontece uma vez por ano, em agosto, na festa do Senhor Bom Jesus, na qual comparecem moradores das outras comunidades, reunindo até 300 pessoas. Mas "festinha" sempre acontece em Serraria. Uma rede cheia de peixe já é motivo de comemoração.

No dia a dia, Benedito, além de pescar, limpar os peixes e camarões, ajuda a mulher nos cuidados com a casa. O espírito comunitário, de companheirismo, cumplicidade e fraternidade é uma realidade vivida na comunidade.

O jovem pescador

Amarildo dos Santos, 19 anos, ajuda Benedito frequentemente. Um jovem sem preguiça que acorda bem cedo para ajudar a lançar as redes no mar, uma atividade coletiva. Ele explica que, quanto mais longe da costeira a rede for lançada, mais chance de pegar peixes grandes como as garoupas.

Enquanto deixam as redes armadas em alto mar, os pescadores retornam para a costa para apanhar lulas. Durante o dia, ele e outros pescadores visitam o cerco de rede em mar alto, "aí é uma surpresa, quando tá vento de maré sul é bom", senão, deixam a noite passar e recolhem a rede no dia seguinte.

E assim Amarildo, como os demais homens da comunidade, tira desta atividade a fonte do sustento da família. Eles acumulam o pescado em grandes caixas de isopor com gelo, que aguentam até 5 dias sem derreter. Após juntar uma quantidade boa de peixes e frutos do mar, os pescadores com mais experiência seguem para a Vila e vendem os produtos. Aproveitam para fazer a compra do mês no supermercado e retornam no modesto barquinho teco-teco, que leva cerca de 2 horas entre o centro de Ilhabela e a Praia de Serraria. Numa lancha potente e com boas condições de tempo, a viagem cai para 30 minutos.

Serviço: as agências de turismo do arquipélago oferecem passeios para a maioria das 17 comunidades tradicionais de Ilhabela, entre elas: Serraria, Bonete, Praia Mansa, Castelhanos, Praia da Fome, Guanxumas, Ilha Vitória, Ilha de Búzios, Furnas, Jabaquara, Enxovas, Figueira, Saco do Sombrio, Indaiauba, Vermelha, Eustáquio e Pacuíba.

edição 91

[27/01/2010 12:58 - bruno]

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